Questão 62 da FUVEST 2007
Texto para as questões de 62 a 64
O anúncio luminoso de um edifício em frente, acendendo e apagando, dava banhos intermitentes de sangue na pele de seu braço repousado, e de sua face. Ela estava sentada junto à janela e havia luar; e nos intervalos desse banho vermelho ela era toda pálida e suave.
Na roda havia um homem muito inteligente que falava muito; havia seu marido, todo bovino; um pintor louro e nervoso; uma senhora recentemente desquitada, e eu. Para que recensear a roda que falava de política e de pintura? Ela não dava atenção a ninguém. Quieta, às vezes sorrindo quando alguém lhe dirigia a palavra, ela apenas mirava o próprio braço, atenta à mudança da cor. Senti que ela fruía nisso um prazer silencioso e longo. “Muito!”, disse quando alguém lhe perguntou se gostara de um certo quadro – e disse mais algumas palavras; mas mudou um pouco a posição do braço e continuou a se mirar, interessada em si mesma, com um ar sonhador.
Rubem Braga, “A mulher que ia navegar”.
O termo sublinhado no trecho “Senti que ela fruía nisso um prazer silencioso e longo” refere-se, no texto,
- Aao sorriso que ela dava quando lhe dirigiam a palavra.
- Bao prazer silencioso e longo que ela fruía ao sorrir.
- Cà percepção do efeito das luzes do anúncio em seu braço.
- Dà falta de atenção aos que se encontravam ali reunidos.
- Eà alegria da roda de amigos que falavam de política e de pintura.
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Resolução comentada
O pronome demonstrativo "nisso" é um elemento de coesão: ele retoma algo já dito antes. Para descobrir o referente, volte à frase anterior ao trecho e veja qual ação ela descreve.
- A frase imediatamente anterior diz que a mulher "apenas mirava o próprio braço, atenta à mudança da cor".
- Essa mudança de cor vem do anúncio luminoso que acende e apaga, "dando banhos intermitentes de sangue" na pele dela (primeiro parágrafo).
- Então "nisso" = mirar o braço e notar a cor mudar conforme a luz do anúncio.
- O prazer "silencioso e longo" é o que ela sente ao observar esse efeito, e não algo ligado à conversa dos outros. O narrador diz que ela "não dava atenção a ninguém".
Confrontando com as alternativas: o sorriso ocorre só quando lhe dirigem a palavra, e não é a fonte do prazer. O prazer não é causado por sorrir, pois o texto diz que ele vem de olhar o braço. A falta de atenção aos presentes é uma característica dela, e não aquilo de que ela fruía. A roda não demonstra alegria nenhuma no texto.
O referente é, portanto, a percepção do efeito das luzes do anúncio no braço.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO sorriso aparece só como reação a quem lhe dirige a palavra e não é o que lhe dá prazer.
- BInverte a relação: o prazer não vem do sorriso, vem de mirar o braço sob as luzes.
- DA falta de atenção aos presentes é comportamento dela, não o objeto de que ela fruía.
- EO texto não fala em alegria da roda; a mulher está alheia à conversa.
Assuntos: coesão referencial, pronome demonstrativo, interpretação de texto.
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