Questão H06 da 2ª fase da FUVEST 2026

2º dia · História

“Pisei o chão frio da noite. A lua pintava de prata as paredes do céu, as copas das árvores, os cones das palhotas, as estrelas brincavam ao pisca-pisca com os seus olhos amarelo-prateados, o meu marido estava bêbado de morrer, vai torturar-me, este búfalo louco, por Deus!

  • Sarnau, estás zangada?
  • Não, não estou.
  • Mas choraste. A bofetada que te dei foi só uma disciplina para aprenderes a não fazer ciúmes. Gosto muito de ti, Sarnau. És a minha primeira mulher. É tua toda a honra deste território. Tu és a mãe de todas as mães da nossa terra. Tu és o meu mundo, minha flor, rebuçado do meu coração.
    Deixei cair duas gotas de fel bem amargas e salgadinhas. Meu marido acariciava-me à moda dos búfalos; dizia-me coisas no ouvido e o seu hálito fedia a álcool, enjoava-me, arrepiava-me, maltratando o meu corpinho frágil. Explodi furiosa e chorei de amargura.”

Paulina Chiziane. Balada de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

“As vozes cantam, o canavial balança, a máquina gira. De repente ouve-se um grito e o trabalho para. Um homem deixou o braço ser arrastado pelas roldanas, puxando-o para a máquina, e... crás! A cabeça esmigalhou-se como um coco.

  • Parem! – gritou o colono. – Dois de vocês encarregam-se do homem. Outros limpam a máquina, rápido, tempo é dinheiro!
    A lua já brincava no céu sem nuvens, quando os homens rudes de chapéu de palha e calcanhares de matope regressaram ao dormitório. Veio a refeição de fubá que comeram com apetite mesmo ao lado do morto. Depois veio a cachaça. Era todos os dias assim. Em cada noite eram presenteados com um cadáver vitimado por uma cobra, uma máquina, febre, ou pelo calor excessivo das torradeiras de café.
  • Depressa, Damião, vai chamar o padre Moçambique e o curandeiro Januário.
    A cachaça rodava enquanto aguardavam a chegada dos dirigentes espirituais, velando pelo morto sem uma lágrima nos olhos, contando histórias da terra, da travessia dos mares e das lutas de resistência.
    Mwando, o padre Moçambique, chegou trajando a sua batina de pano cru, chapéu de palha e pés descalços, levando a Bíblia na mão esquerda. Logo a seguir chegou também o angolano Januário. Todos se ergueram, tiraram os chapéus curvando-se numa vênia, em saudação aos seus dirigentes.”

Paulina Chiziane. Balada de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

Cada um dos excertos menciona um dos protagonistas do romance: Sarnau, em Moçambique e Mwando, em Angola. A partir do contexto apresentado,

a) indique qual é a situação política de Angola e Moçambique no período em que ocorrem os episódios relatados nos excertos.

b) aponte dois traços das relações entre gêneros na sociedade em que se passa o excerto que enfoca Sarnau.

c) caracterize as relações religiosas e de trabalho presentes no excerto que menciona Mwando.

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Resolução comentada

Resolução comentada

a) Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane, se passa no fim do século XIX e no início do XX, quando Angola e Moçambique eram colônias de Portugal. Não eram países independentes: só se tornaram soberanos em 1975, depois da Guerra Colonial e da Revolução dos Cravos (1974).

Nesse período, o domínio português já era efetivo, sobretudo após a Conferência de Berlim (1884-85), que exigiu a ocupação efetiva dos territórios. Isso explica a presença do "colono" no segundo excerto e a exploração da mão de obra africana. O poder político estava nas mãos da administração colonial, e os africanos não tinham direitos políticos plenos.

Angola e Moçambique eram colônias portuguesas, submetidas à administração e à exploração coloniais, e só se tornaram independentes em 1975.

b) O excerto de Sarnau mostra uma sociedade patriarcal e poligâmica.

  1. Violência e controle sobre a mulher: o marido a agride ("a bofetada") e justifica a agressão como "disciplina" para que ela não sinta ciúmes. Ele a trata como propriedade, a quem pode corrigir fisicamente. Depois ameaça-a, bêbado, e a maltrata, sem considerar o desejo dela.
  2. Hierarquia entre as esposas e a honra atribuída à mulher pelo casamento: Sarnau é "a primeira mulher", o que revela a poligamia. A mulher recebe prestígio como esposa e mãe ("mãe de todas as mães"), não como indivíduo. Seu valor social vem do papel conjugal e da maternidade, e ela deve suportar a submissão e silenciar o ciúme.

Traços: patriarcalismo com violência masculina e submissão feminina; poligamia, com valorização da mulher pelo papel de esposa e mãe.

c) Nas relações de trabalho, os africanos trabalham em plantações de cana e café, em condições de exploração extrema: ritmo imposto pelo colono ("tempo é dinheiro"), máquinas perigosas, mortes diárias e nenhuma preocupação com a vida dos trabalhadores. A morte do homem é tratada como interrupção a resolver rápido. Trata-se de trabalho compulsório ou análogo à escravidão, comum nas colônias portuguesas após o fim formal da escravidão. O trabalhador é visto como mercadoria.

Nas relações religiosas, há sincretismo e organização própria da comunidade: o padre Moçambique, com batina e Bíblia, representa o cristianismo trazido pelos colonizadores, enquanto o curandeiro Januário representa as tradições espirituais africanas. Ambos são respeitados como dirigentes espirituais. O velório, com histórias da terra e da resistência, mantém a identidade coletiva e funciona como forma de resistência cultural.

Trabalho colonial brutal e compulsório, dominado pelo lucro do colono; religiosidade sincrética, que combina o cristianismo e as crenças africanas e fortalece a solidariedade e a resistência cultural.

Assuntos: áfrica colonial portuguesa, relações de gênero, trabalho e religiosidade.

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