Questão 4 da 2ª fase da FUVEST 2026

1º dia · Português

Nenhuma flor lamentava a morte dos escravos que Celestino sufocara em mar alto. Os homens despejaram a cal no porão, saco a saco. Os negros viram que um pó caía sobre eles, mas não entenderam o que se passava. Os sacos de cal foram vazados no porão e a porta fechada por Celestino. Ouviram-se gemidos, pedidos de socorro e, passado algum tempo, um silêncio que apaziguou os piratas. O rapaz que lhes abrira o porão pela calada manteve-se a um canto, aturdido. Entreolhando-se, buscaram na cara uns dos outros um sinal de que podiam voltar a falar. O capitão sorriu, como se estivesse sozinho. Asfixiados, os sessenta e poucos negros que restavam depois da revolta sucumbiram aos vapores corrosivos da cal. Celestino abeirou-se da proa, sem olhar a mortandade. De olho no horizonte que espreitava, ao nascer do dia, sorveu a maresia.

(...)

Adormecia de pé, trauteava cantigas da juventude, sonhava de olhos abertos.

Os relâmpagos caíram sem clemência no último Outono. Parecia que a velha casa da rua dos choupos era a última casa habitada no mundo, ou uma balsa esquecida nas ondas, ou o porão de escravos de um navio à deriva.

Os seus braços, despedidos do dono, esboçavam gestos de marinhar como se, por reflexo, os trovões desencadeassem uma arte antiga, guardada debaixo da sua pele.

Deixou de usar a pala, sem vergonha da cara desfigurada. No quintal, não se julgava no mar onde tinha navegado, mas num mar outro, sem homens e sem tempo.

Djaimilia Pereira de Almeida. A visão das plantas. Adaptado.

Nos excertos apresentados, Celestino é retratado em dois momentos distintos de sua vida.

a) Compare a sua atitude diante dos atos de violência em sua juventude e o seu estado psicológico na velhice.

b) Explique a relação simbólica entre o espaço do navio e o espaço da casa, tendo em vista a transformação do “mar onde tinha navegado” em um “mar outro, sem homens e sem tempo”.

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a) Na juventude, Celestino, capitão de um navio negreiro, pratica a violência com frieza e indiferença. Ele manda sufocar com cal mais de sessenta negros que restavam depois da revolta. Enquanto os piratas se entreolham, apaziguados por um silêncio que só chega com a morte, ele "sorriu, como se estivesse sozinho". Depois vai à proa "sem olhar a mortandade" e respira a maresia, de olho no horizonte. Ou seja, não demonstra remorso, empatia nem perturbação: os escravos são tratados como coisas, e a morte deles não o abala.

Na velhice, o quadro é outro. Ele está isolado, desorientado e atormentado: adormece de pé, canta cantigas da juventude, sonha de olhos abertos. Os trovões lhe trazem de volta o passado, e seu corpo reage por reflexo, com gestos de marinheiro. Há ainda a imagem de ruína (rosto desfigurado, sem pala). O homem que não sentia nada diante da morte alheia agora vive assombrado por memórias, num estado de confusão, de solidão e de possível culpa não elaborada. Na juventude, frieza e insensibilidade diante da morte dos escravos; na velhice, solidão, alheamento, delírio e assombro pela memória.

b) A casa é descrita como "a última casa habitada no mundo", "uma balsa esquecida nas ondas" e "o porão de escravos de um navio à deriva". Assim, o espaço doméstico se identifica simbolicamente com o navio. A casa é a balsa à deriva, em que Celestino está isolado como estiveram os náufragos e os cativos. E é também o porão: ele passa a ocupar o lugar de confinamento, sufocamento e desamparo que impôs aos escravos. Há inversão de posições, o algoz se vê no lugar das vítimas, e o passado violento retorna como castigo e memória.

O quintal, onde ele não se julga no mar onde navegou, mas num "mar outro, sem homens e sem tempo", marca a passagem do mar histórico (do tráfico, da violência, do poder) a um mar mental, de suspensão do tempo. Esse mar é o espaço da velhice e da demência: sem outros homens, sem passado e futuro delimitados, em que o passado se mistura ao presente e a culpa e a memória se dissolvem em solidão. A casa é símbolo do navio: balsa à deriva e porão. O mar real do tráfico vira um mar interior, atemporal e solitário, onde Celestino se vê no lugar de confinamento e abandono das vítimas.

Assuntos: interpretação de texto literário, literatura portuguesa contemporânea, simbolismo do espaço.

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