Questão 5 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2026
Catar Feijão
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.
João Cabral de Melo Neto. Poesias Completas.
a) No poema, João Cabral de Melo Neto faz uma comparação entre “catar feijão” e “escrever”. Aponte uma semelhança e uma diferença entre essas duas ações, justificando sua resposta com fragmentos do texto.
b) Explique como foram formados morfologicamente os adjetivos “fluviante” e “flutual” e indique quais são os seus significados no contexto do poema.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) A semelhança está no gesto de catar, isto é, selecionar. No feijão, separam-se os grãos bons dos ruins. Na escrita, separam-se as palavras boas das ruins. O processo também é parecido: "joga-se os grãos na água do alguidar / e as palavras na da folha de papel", e depois "joga-se fora o que boiar". O que boia é "o leve e oco, palha e eco", ou seja, o que não tem peso nem substância.
A diferença aparece na estrofe 2, no papel da pedra. Entre os grãos pesados de feijão, ela é um risco: é o "grão imastigável, de quebrar dente", algo indesejável. Na escrita, ao contrário, a pedra é valorizada: "a pedra dá à frase seu grão mais vivo". Ela "obstrui a leitura fluviante, flutual" e "açula a atenção", isto é, desperta o leitor e o obriga a parar diante da palavra. Por isso, o que estraga o feijão enriquece o texto. Semelhança: em ambas se separa o bom do ruim jogando tudo na água e descartando o que boia. Diferença: a pedra é defeito no feijão e qualidade na frase, pois desafia a atenção do leitor.
b) As formas esperadas seriam fluvial (de rio, fluvi- + -al) e flutuante (flutu- + -ante). O poeta troca os sufixos: fluvi- + -ante dá fluviante, e flut(u)- + -al dá flutual. São, portanto, neologismos formados por derivação sufixal, com cruzamento (inversão) dos sufixos de fluvial e flutuante.
No contexto, fluviante remete ao fluir contínuo do rio, a uma leitura corrida, sem tropeços. Flutual remete ao que flutua, leve e à deriva, levado pela água. Ambos qualificam a leitura fácil e deslizante, que a "pedra" vem interromper. Os dois são neologismos por troca de sufixos: fluviante = que flui como rio; flutual = que flutua, leve, sem obstáculo.
Assuntos: João Cabral de Melo Neto, metalinguagem, formação de palavras.
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