Questão 3 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2026

1º dia · Português

— Gostaria de entrar para um convento. Acho que seria feliz num convento, ficaria lá quietinha, olhando o mundo lá longe, envelhecendo em paz, sem testemunhas, tenho pavor das testemunhas, descobri que o que mais me apavora, tanto na vida como na morte, são as testemunhas. Sempre estou encontrando alguém que se lembra de mim nesta ou naquela data, as testemunhas são tão atentas, uma memória! Por que as pessoas têm tanta memória? Eu estava num jantar tão alegrinha e veio alguém que me olhou, olhou e começou com aquela conversa que me arrepia inteira, acho que você não está mais se lembrando de mim... Oh Deus, quando ouço esse começo já fico gelada, começa assim, aposto que você não está se lembrando! Faço aquela cara vaga, disfarço mas não adianta, a testemunha é um bico voraz me arrancando os fiapos de carne, tuque-tuque, não vai deixar a presa, uma voracidade, não foi em? ... A data.

Lygia Fagundes Telles. As meninas.

Ouvi direito? O que estou relatando é o que ouvi? (...). A fala suspensa foge da escrita. E mais, a grafia não registra a intensidade de um silêncio intervalar, diante de um renovado estado de estupor, vivido na hora das relembranças. Se contar e recontar são atos marcados por sinais de incompletude, pois difícil é traduzir os intensos sentidos da memória, imaginem escrever. Imaginem perseguir uma escrevivência. Agarrar a vida, a existência, e escrevê-la em seu estado de acontecimentos. Mas persisto nessa intenção. (...) Não descanso, não durmo, não fecho os olhos, não me distraio. Vigio tanto que nem sei se oro. Capto como testemunha ocular ou como ouvinte a dinâmica de vidas que se confundem com a minha, por algum motivo.

Conceição Evaristo. Canção para ninar menino grande. Introdução. “Das minúcias ao engrandecimento”.

Nos excertos apresentados, observe que a memória é uma estratégia narrativa, interferindo nas ações e emoções das personagens que viveram e testemunharam o passado. Nesse contexto,

a) identifique como os romances recorrerem à memória como recurso narrativo, comparando-os.
b) aponte duas diferentes consequências dessa estratégia narrativa em ambos os romances.

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Resolução comentada

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a) Nos dois textos a memória organiza a narração, mas com sinais opostos.

Em As meninas, Lygia Fagundes Telles usa o discurso direto livre e o fluxo de consciência. A personagem fala sem pausa, em frases encadeadas por vírgulas, com interrupções e hesitações ("não foi em? ... A data."). A memória aparece como algo ameaçador e involuntário: a "testemunha" lembra dela em "nesta ou naquela data" e a obriga a reviver um passado que ela quer esquecer. A lembrança é dos outros, e a personagem a rejeita; por isso deseja o convento, onde ficaria "sem testemunhas". A memória, aqui, é fonte de angústia e de fuga.

Em Conceição Evaristo, a memória é assumida deliberadamente como método narrativo. A narradora, em primeira pessoa, se coloca como "testemunha ocular" ou "ouvinte" e persegue a "escrevivência": escrever a vida e a experiência coletiva, vidas que "se confundem com a minha". Ela reconhece a dificuldade de registrar o que foi vivido e ouvido (a fala suspensa, o silêncio, o estupor), mas persiste e vigia. A memória é, portanto, busca e dever de registro.

Comparação: em Lygia, a memória é imposta e sentida como perseguição; em Evaristo, é procurada e vista como forma de resistência e de elaboração do vivido.

Resposta: ambas usam a memória como recurso narrativo; em Lygia ela é involuntária, fragmentada e angustiante (a testemunha ameaça), em Evaristo é voluntária, testemunhal e coletiva (escrevivência).

b) Duas consequências em cada obra:

  1. Efeito sobre a forma da narrativa. Em Lygia, o fluxo de pensamento gera um texto fragmentado, com pontuação livre, interrupções e reticências, que reproduz a mente agitada da personagem. Em Evaristo, a tentativa de captar a fala e o silêncio leva a uma escrita que admite a incompletude, mas busca ser fiel à experiência (a escrevivência).

  2. Efeito sobre as emoções e a ação das personagens. Em Lygia, a memória causa pavor, "arrepio" e desejo de isolamento: a personagem finge não lembrar e sonha com o convento, ou seja, recua da vida social. Em Evaristo, a memória mobiliza a narradora: ela não descansa, vigia e persiste em registrar, e assim dá voz e visibilidade a vidas que se misturam à sua, criando laços de identidade e de pertencimento.

Resposta: (1) a memória molda a linguagem, fragmentada em Lygia e testemunhal e consciente de suas lacunas em Evaristo; (2) ela determina as emoções e ações, levando ao medo e ao isolamento em Lygia e ao engajamento no registro e na solidariedade em Evaristo.

Assuntos: memória como recurso narrativo, literatura brasileira contemporânea, escrevivência.

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