Questão 2 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2026

1º dia · Português

Como eu, você e todos nós estamos nos transformando em uma nuvem de dados - e isto não é nada bom

Marcelo Soares

Oito em cada dez usuários de internet no Brasil usam as redes sociais com frequência, de acordo com dados de 2024 do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto Br (NIC.Br). Silenciosamente, enquanto você navega, as redes sociais coletam muito mais informação do que aquilo que fornecemos conscientemente.

Cookies são pequenos arquivos que os sites despejam no seu navegador quando você visita uma página. A finalidade é identificá-lo na próxima visita, e com isso eles viram uma espécie de diário de bordo de tudo o que você fez no site.

Eles podem ser do próprio site acessado: ao retornar a um site de notícias, os links em que você já clicou aparecem roxos em vez de azuis. Mas no lucrativo negócio dos cookies de terceiros, os cookies despejados no seu computador pelo site que você visita podem vir de redes de anúncios presentes também em outros sites. A relação dessas redes não é diretamente com você, mas com os sites que acessa. É por isso que tantos sites usam pop-ups pedindo sua autorização para cookies: se não usam cookies de terceiros, não é preciso pedir licença.

Essas empresas coletam dados da sua navegação para refinar um perfil comercializável seu. Num nível mais alto, esses dados são vendidos e cruzados com bases externas, tipo dados vazados do Serasa, histórico comercial e até dados de saúde. É assim que surgem os corretores de dados (data brokers). Eles não têm relação com o seu uso da internet e nem com os sites por onde você passa. São empresas que compilam tudo isso para vender perfis completos, muitas vezes contendo nome, CPF, telefone ou nomes de parentes. Esse mercado alimenta desde a publicidade legítima até golpes e fraudes. Pessoas que aplicam golpes no WhatsApp, por exemplo, muitas vezes compraram o perfil da vítima, com foto e tudo, num site que fornece isso.

Quem está nesses bancos de dados nem faz ideia de que está sendo comercializado como produto. Parte das pessoas que faz ideia disso acaba embarcando na ideia falaciosa de que “todos os nossos dados já são públicos”. É uma falácia: nesses casos mais graves, eles foram roubados ou obtidos mediante falsas premissas.

Disponível em https://theconversation.com/. Adaptado.

a) O texto do jornalista e professor Marcelo Soares é um artigo de divulgação científica. Textos de divulgação científica recontextualizam e didatizam conceitos, procedimentos e dados técnicos e científicos para leitores que, em geral, não são especialistas em uma dada área do conhecimento. Discuta duas estratégias utilizadas pelo professor para tornar o texto mais acessível, exemplificando cada uma delas com um excerto pertinente.

b) De acordo com o artigo, por que é possível afirmar que estamos sendo comercializados como produtos na internet?

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Resolução comentada

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a) Textos de divulgação científica precisam traduzir termos técnicos para o leitor leigo. Duas estratégias aparecem no artigo:

  1. Definição com analogia ou metáfora do cotidiano. O autor explica o termo técnico cookies com uma linguagem simples e uma comparação: "Cookies são pequenos arquivos que os sites despejam no seu navegador" e "eles viram uma espécie de diário de bordo de tudo o que você fez no site". A imagem do "diário de bordo" torna concreta a função de registrar e identificar o usuário.

  2. Exemplo concreto, familiar ao leitor, e interlocução direta. Para mostrar o cookie do próprio site, o autor recorre a uma experiência comum: "ao retornar a um site de notícias, os links em que você já clicou aparecem roxos em vez de azuis". Outro exemplo é o dos golpes no WhatsApp, que ilustra o uso criminoso dos perfis vendidos. O uso de "você" aproxima o texto do leitor.

Outras respostas aceitáveis: contraste entre cookies próprios e de terceiros, dados estatísticos do NIC.Br e explicação de siglas e termos em inglês (data brokers).

Estratégias: definição com analogia ("diário de bordo") e exemplos do cotidiano (links roxos, golpes no WhatsApp).

b) Porque os dados coletados na navegação, por meio dos cookies, são usados para montar um perfil comercializável de cada pessoa. Esses dados são vendidos e cruzados com bases externas (dados vazados do Serasa, histórico comercial, dados de saúde). Os data brokers compilam tudo isso e vendem perfis completos, com nome, CPF, telefone e nomes de parentes, a anunciantes e até a golpistas. As pessoas não sabem disso: o que é vendido são elas mesmas, ou melhor, suas informações pessoais, sem consentimento claro.

Porque suas informações são coletadas, compiladas em perfis completos e vendidos por empresas como os data brokers, sem que as pessoas saibam.

Assuntos: divulgação científica, interpretação de texto, estratégias de linguagem.

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