Questão 1 da 2ª fase da FUVEST 2026
Algumas estrelas podem estar rodeadas de pequenos mundos rochosos e sem vida, de sistemas planetários congelados durante um estágio inicial da sua evolução. Talvez muitas estrelas possuam sistemas planetários semelhantes ao nosso; na periferia, grandes planetas com anéis gasosos e luas geladas, e, mais próximo do centro, pequenos mundos quentes, azuis-esbranquiçados e cobertos por nuvens. Em alguns, a vida inteligente pode ter evoluído, refazendo a superfície planetária com algum empreendimento massivo de construção. São nossos irmãos e irmãs no Cosmos. Serão muito diferentes de nós? Como será sua forma, bioquímica, neurobiologia, história, política, ciência, tecnologia, arte, música, religião e filosofia? Talvez algum dia o saibamos.
Carl Sagan. Cosmos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.
No seio majestoso do infinito,
- Alvos cisnes do mar da imensidade, -
Flutuam tênues sombras fugitivas
Que a multidão supõe densas caligens*,
E a ciência reduz a grupos validos;
Vejo-as surgir à noite, entre os planetas,
Como visões gentis a flux dos sonhos;
E as esferas que curvam-se trementes,
Sobre elas desfolhando flores d’ouro,
Roubam-me instantes ao sofrer recôndito!
Narcisa Amália, Nebulosas. São Paulo: Via Leitura, 2024.
*caligens – nevoeiros densos; névoas
a) Indique dois elementos do cosmos mencionados por Carl Sagan que estão presentes nos poemas de Nebulosas como metáforas, explicando sua significação no poema de Narcisa Amália citado acima.
b) Aponte uma discussão sobre história, política ou ciência presente na antologia Nebulosas e explique sua relação com um ideal de irmandade (“irmãos e irmãs no Cosmos”) no contexto dos poemas.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) Sagan menciona estrelas, planetas, luas e outros corpos celestes. No trecho de Narcisa Amália, dois deles aparecem como metáfora: os planetas/esferas e as estrelas ("flores d'ouro").
As "esferas que curvam-se trementes" são os astros personificados. Eles "desfolham flores d'ouro" sobre as "tênues sombras fugitivas", isto é, as nebulosas. Essa imagem das flores d'ouro representa a luz das estrelas como uma chuva de pétalas, ligando o cosmos à beleza e ao consolo.
Os astros não são apenas paisagem. O eu lírico os vê "entre os planetas", como "visões gentis a flux dos sonhos", e eles lhe "roubam instantes ao sofrer recôndito". Os astros funcionam, portanto, como alívio de uma dor íntima, uma companhia sensível que afasta o sofrimento da poeta.
Há ainda a metáfora dos "alvos cisnes do mar da imensidade", que é a das nebulosas, vistas como cisnes que flutuam num mar infinito. Mas a resposta pedida está contemplada com planetas e estrelas.
Resposta: planetas (esferas) e estrelas, metáforas de companhia e beleza que consolam o eu lírico e lhe aliviam o sofrimento íntimo.
b) Em Nebulosas, Narcisa Amália, poeta oitocentista ligada ao Romantismo e à propaganda republicana e abolicionista, trata da ciência e da política. Um exemplo é o contraste do poema entre a "multidão", que supõe as nebulosas "densas caligens", e a "ciência", que as "reduz a grupos válidos". A ciência aparece como conhecimento que esclarece o que o senso comum toma por mera névoa, e que revela ordem no universo.
Essa visão se relaciona com a ideia de irmandade em Sagan. Se o cosmos é um todo compreensível e partilhado, todos os seres, e por extensão todos os humanos, pertencem à mesma ordem universal. Na antologia, essa perspectiva se liga ao ideal de igualdade e liberdade defendido pela autora em poemas de cunho político, como os de crítica à escravidão: se todos compartilham a mesma imensidade e o mesmo destino, não há razão para hierarquias entre os homens. A ciência, ao desfazer as "caligens", dissolve também preconceitos e ignorância, e abre caminho à fraternidade, tal como Sagan quer reconhecer "irmãos e irmãs" no Cosmos.
Resposta: a discussão sobre ciência (a multidão que vê névoas, a ciência que ordena) e a política de igualdade e liberdade, que se aproximam da irmandade cósmica por pressuporem um universo comum a todos.
Assuntos: literatura brasileira, narcisa amália, intertextualidade.
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