Questão H05 da 2ª fase da FUVEST 2025
Ao analisar as formas de dominação entre homens livres na zona rural do Vale do Paraíba no século XIX, a socióloga Maria Sylvia de Carvalho Franco afirmou:
“O compadrio é uma instituição que permite essa aparente quebra de barreiras sociais entre as pessoas por ela ligadas. (...) Para que se tenha presente o quanto esse recurso foi explorado, basta lembrar o significado que ‘apadrinhar’ adquiriu na vida pública e o suporte político representado pelos ‘afilhados’. Ampliando-se as trocas do compadrio para situações sociais, compreende-se como deriva dele toda uma intrincada rede de dívidas e obrigações, infindáveis porque sempre renovadas em cada uma de suas amortizações, num processo que se regenera em cada um dos momentos em que se consome.”
FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: Ática, 1974, p.78-79.
a) Qual era a principal atividade econômica desenvolvida no Vale do Paraíba no século XIX?
b) Cite um exemplo de subordinação política e um exemplo de obrigação social derivados da relação de “apadrinhamento” analisada no excerto.
c) Diferencie a dominação vigente sob o regime da escravidão da forma de dominação social exercida pelo “apadrinhamento”.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) No século XIX, o Vale do Paraíba (sobretudo o trecho paulista e fluminense) foi o grande centro da cafeicultura brasileira. As fazendas eram latifúndios voltados à exportação, baseados na mão de obra escrava. O café sustentou a economia do Império e a elite dos "barões do café", que tinha forte peso político. Ao lado das grandes fazendas, havia homens livres pobres (sitiantes, agregados, camaradas), que são os personagens analisados por Maria Sylvia de Carvalho Franco. Resposta: a cafeicultura, de grande propriedade e exportadora, apoiada no trabalho escravo.
b) O texto mostra que o compadrio criava laços pessoais entre desiguais, e que esses laços geravam lealdades.
Exemplo de subordinação política: o afilhado, ou o compadre de posição inferior, apoiava o padrinho poderoso nas disputas locais. Ele votava nos candidatos indicados por ele e lhe dava "suporte político", como o excerto diz. Isso é típico do coronelismo e do clientelismo.
Exemplo de obrigação social: o compadre pobre devia favores, respeito e fidelidade ao padrinho. Podia ter de prestar serviços, ajudar nas colheitas ou se mostrar sempre disponível. O padrinho, em troca, oferecia proteção e auxílio. A "rede de dívidas e obrigações" nunca se quitava, porque cada favor gerava outro. Resposta: subordinação política: o afilhado votar e apoiar o padrinho; obrigação social: prestar serviços, favores e lealdade permanente ao padrinho.
c) Na escravidão, a dominação era jurídica e coercitiva. O escravizado era propriedade do senhor, sem liberdade, sem direitos e submetido à violência e ao trabalho forçado. A relação era explícita e imposta pela lei e pela força.
No apadrinhamento, a dominação atingia homens livres, formalmente iguais perante a lei. Ela se baseava em laços pessoais, afetivos e de reciprocidade, e dava a impressão de uma "aparente quebra de barreiras sociais". Ela era, por isso, simbólica e consensual, e mascarava a desigualdade e a dependência do dominado. Resposta: a escravidão impunha dominação legal, pela propriedade e pela coerção sobre não livres; o apadrinhamento exercia dominação por laços pessoais e dívidas de favor entre livres, aparentemente voluntária e disfarçada de afeto.
Assuntos: café no vale do paraíba, compadrio e clientelismo, escravidão no brasil império.
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