Questão 8 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2025
A bola rola na língua
Valência, volância, centroavância, pressão alta e jogadores frescos. Conheça o novo vernáculo
Se há duas coisas que me empolgam são o futebol e a língua portuguesa. Elas se fundem e se completam na transmissão dos jogos pela televisão. Rara a semana em que não vibro com alguma contribuição à língua pelos narradores e comentaristas —e estou falando sério. O futebol é um universo dinâmico, em permanente expansão, o que obriga os profissionais do microfone a complexos malabarismos imagéticos para fazer jus a ele.
Dois desses malabarismos, hoje em vasto uso, se referem à bola. Ou ela beija a trave ou vai morrer na bochecha da rede. A imagem do beijo na trave poderia ter saído do grande Augusto dos Anjos. Quanto à bochecha da rede, imagino que, se existe, implicará também a existência de uma gengiva, úvula ou amígdala da rede.
O que mais tenho admirado, no entanto, é o criativo uso da palavra valência para definir esta ou aquela qualidade de um jogador. Imagino que dela tenham saído as novas definições de funções em campo: a volância, referente aos volantes, e a centroavância, aos centroavantes.
CASTRO, Ruy. Folha de S. Paulo. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2024/07/ (Adaptado).
a) No segundo parágrafo, o autor trata de duas construções que vêm se destacando na narração de jogos de futebol: (i) a bola beija a trave e (ii) a bola vai morrer na bochecha da rede. Explique, valendo-se dos seus conhecimentos sobre figuras de linguagem, os processos conotativos envolvidos na formação dessas expressões.
b) No último parágrafo, o autor aplica, de forma humorística, um dado esquema de sufixação. Descreva como as palavras volância e centroavância foram formadas e explique qual o significado que se pode atribuir ao sufixo.
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Resolução comentada
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a)
Em “a bola beija a trave”, ocorre personificação (ou prosopopeia): atribui-se à bola uma ação própria de seres humanos. O beijo representa, metaforicamente, o contato breve ou leve da bola com a trave.
Em “a bola vai morrer na bochecha da rede”, “morrer” também personifica a bola e expressa, por metáfora, o fim de seu movimento. Já “bochecha da rede” é uma metáfora baseada na semelhança entre uma parte lateral da rede e a região lateral do rosto humano. Essa associação explica a brincadeira do autor ao imaginar outras partes do corpo pertencentes à rede.
As expressões combinam personificação e metáfora: a bola recebe ações humanas, e a lateral da rede é associada a uma bochecha.
b)
“Volância” e “centroavância” são neologismos formados por derivação sufixal, a partir de “volante” e “centroavante”. Nas duas formações, a terminação “-ante” é substituída por “-ância”, seguindo, humoristicamente, o modelo de “valência”, palavra empregada pelos comentaristas para indicar qualidades de um jogador.
Nesse contexto, o sufixo “-ância” forma substantivos abstratos e pode indicar a condição, a função ou o conjunto de características associado a uma posição. Assim, “volância” designa a função ou as características dos volantes, enquanto “centroavância” se refere às dos centroavantes. O humor resulta da criação de termos com aparência técnica para nomear funções já conhecidas no futebol.
As palavras derivam de “volante” e “centroavante”, por analogia com “valência”; “-ância” indica a condição, a função ou os atributos associados a essas posições.
Assuntos: figuras de linguagem, formação de palavras, neologismos.
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