Questão 5 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2025

1º dia · Português

A artista plástica moçambicana Bertina Lopes (1924-2012) foi a ilustradora da 1a edição do livro Nós matamos o cão tinhoso!, de Luís Bernardo Honwana, publicada em Moçambique em 1964. Assim como Honwana, Bertina participou da luta anticolonial dos moçambicanos contra os portugueses, e suas obras mesclam influências dos movimentos da vanguarda artística europeia do início do século XX com a iconografia africana e os acontecimentos políticos da época.

Ilustração em traços brancos sobre fundo preto de figuras humanas estilizadas com semblantes expressivos e braços erguidos, com a legenda: Bertina Lopes, Ilustração para a capa da 1ª edição de Nós matamos o cão tinhoso!, de Luís Bernardo Honwana.

Com base na imagem e na leitura do livro Nós matamos o cão tinhoso!,

a) exemplifique, a partir de dois contos da antologia Nós matamos o cão tinhoso!, a perspectiva assumida por essa obra sobre a luta dos moçambicanos contra o domínio colonial português.

b) aponte um aspecto da obra que se relacione com características da imagem. Justifique a sua resposta.

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a) A obra assume o ponto de vista dos colonizados. Ela mostra a violência e a humilhação do domínio português, sem panfleto, a partir de cenas cotidianas e quase sempre pelo olhar de crianças e de pessoas comuns. A resistência aparece como tomada de consciência e como revolta, às vezes simbólica.

No conto que dá título ao livro, o menino Ginho, negro, participa com outros garotos da execução do cão tinhoso, animal doente e sofrido. A cena alegoriza a luta contra a opressão: o "cão tinhoso" representa o sistema colonial, que precisa ser eliminado. Ginho, porém, sofre pela violência e pelo medo, e isso mostra o custo humano dessa luta. Também há, no conto, a figura do Senhor Administrador, branco e autoritário, que ilustra a hierarquia racial colonial.

Em "Dina", a personagem de mesmo nome sofre a exploração sexual e social, o que mostra a opressão sobre a mulher negra. Em "Papa, Cobra e Eu", a visão do narrador, que se sente solidário aos negros, evidencia o contraste entre os dois mundos. Em todos os casos, o livro denuncia a desigualdade e a violência colonial e valoriza a dignidade e a solidariedade dos oprimidos.

A obra adota a perspectiva anticolonial dos colonizados: no conto "Nós matamos o cão tinhoso", a morte do cão simboliza a eliminação da opressão; em "Dina", mostra-se a exploração da mulher negra.

b) A imagem tem traços brancos, ásperos e inacabados sobre fundo preto, com figuras humanas estilizadas, deformadas, de rostos expressivos e braços erguidos, amontoadas numa espécie de grade. Isso transmite angústia, tensão, sofrimento e revolta, sugerindo uma coletividade oprimida e encurralada, que ao mesmo tempo clama e resiste.

Esse aspecto se relaciona com o livro, que apresenta uma coletividade sofrida (os meninos, os negros) aprisionada em estruturas rígidas de dominação, como a escola, o trabalho e a hierarquia racial. O contraste entre branco e preto remete ainda à divisão racial da sociedade colonial. A estilização expressionista, com deformação e tensão, corresponde à linguagem do livro, que registra a violência de modo contido e simbólico. Os braços erguidos lembram o gesto de revolta, como o ato coletivo de matar o cão.

A imagem de figuras angustiadas e encurraladas, em contraste de preto e branco, relaciona-se com a denúncia da opressão colonial e da divisão racial, e com a revolta coletiva dos oprimidos presente nos contos.

Assuntos: literatura moçambicana, nós matamos o cão tinhoso, colonialismo e anticolonialismo.

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