Questão 4 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2025
“(...) O Expressionismo foi uma estética que se manifestou primeiro na pintura, na segunda metade do século XIX, tendo entre seus pioneiros o pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) e o pintor norueguês Edward Munch (1863-1944). Em Van Gogh é como se o vigor das pinceladas e a violência das cores passassem a ser mais importantes do que a perfeição geométrica do desenho. Isso porque, para o expressionista, bem mais importante do que fotografar objetivamente a realidade, é expressar (daí o adjetivo expressionista) subjetivamente o choque da realidade no ser humano.”
GOMES, Alexandre Rodrigues. Cartografia do expressionismo na literatura de língua portuguesa, 2018. Disponível em https://pos.uea.edu.br/data/area/dissertacao/download/34-14.pdf.
a) A partir do texto, aponte dois aspectos da estética expressionista na obra Os ratos, de Dyonélio Machado. Justifique a sua escolha.
b) Os traços expressionistas de Os ratos aproximam a obra dos padrões literários do chamado regionalismo de 1930? Explique.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
Resolução comentada
a) O trecho diz que, para o expressionista, importa menos "fotografar objetivamente a realidade" e mais expressar subjetivamente "o choque da realidade no ser humano", com deformação, intensidade e cores violentas. Em Os ratos (1935), isso aparece em dois aspectos.
-
Subjetivação da realidade pelo foco narrativo. O narrador, em terceira pessoa, acompanha de perto a consciência de Naziazeno, um funcionário público endividado. A cidade, o leiteiro, o dinheiro e o tempo são filtrados pela angústia dele. O que importa é a pressão que a realidade exerce sobre o homem, e não uma descrição objetiva de Porto Alegre.
-
Deformação e exagero do real, com obsessão e opressão. Um problema banal, os 53 mil-réis devidos ao leiteiro, vira uma obsessão que ocupa um dia inteiro. As imagens são distorcidas, como os ratos que roem o dinheiro e a casa e a sensação de perseguição. A linguagem é fragmentada e repetitiva, o que reproduz o desespero de Naziazeno. Isso corresponde ao "vigor das pinceladas" de Van Gogh, em que a intensidade da expressão vale mais que a fidelidade do desenho.
Respostas: (1) visão subjetiva, filtrada pela consciência angustiada de Naziazeno; (2) deformação e exagero da realidade, com a obsessão e a opressão causadas por uma dívida banal.
b) Não. O regionalismo de 1930 (Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado) denuncia problemas sociais ligados a regiões específicas, sobretudo o Nordeste rural, como seca, latifúndio e coronelismo. Seu tom é de documento social e seu realismo é mais objetivo.
Os ratos se passa em ambiente urbano, em Porto Alegre, e trata do drama psicológico de um pequeno funcionário. Os traços expressionistas, como a interiorização, a angústia e a deformação, deslocam o foco da paisagem e do tipo regional para a consciência do indivíduo. A obra tem crítica social, pois mostra a miséria da classe média baixa, mas a trata de modo psicológico e urbano. Por isso se afasta dos padrões regionalistas, embora pertença à mesma década e compartilhe a preocupação social.
Resposta: não. Os traços expressionistas voltam a obra para a angústia psicológica e urbana do indivíduo, e não para a denúncia de uma realidade regional, que é o foco do regionalismo de 1930.
Assuntos: os ratos, expressionismo, regionalismo de 1930.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova