Questão 9 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2015

1º dia · Português

A uma religiosidade de superfície, menos atenta ao sentido íntimo das cerimônias do que ao colorido e à pompa exterior, quase carnal em seu apego ao concreto (...); transigente e, por isso mesmo, pronta a acordos, ninguém pediria, certamente, que se elevasse a produzir qualquer moral social poderosa. Religiosidade que se perdia e se confundia num mundo sem forma e que, por isso mesmo, não tinha forças para lhe impor sua ordem.

Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil. Adaptado.

Tendo em vista estas reflexões de Sérgio Buarque de Holanda a respeito do sentido da religião na formação do Brasil, responda ao que se pede.

a) Essas reflexões se aplicam à sociedade representada nas Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida? Justifique resumidamente.

b) Os juízos aqui expressos por Sérgio Buarque de Holanda encontram exemplificação em Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, especialmente na parte em que se narra o período de formação do menino Brás Cubas? Justifique sucintamente.

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Resolução comentada

a) Sim, as reflexões se aplicam. Sérgio Buarque descreve uma religiosidade exterior, ligada à pompa, ao concreto e à transigência, sem força para impor uma moral social. É o que aparece nas Memórias de um sargento de milícias, que retratam o Rio de Janeiro do tempo de D. João VI. Ali a religião vive nas festas, procissões, cerimônias e batizados, como o de Leonardo, e nos personagens ligados à Igreja, como o compadre barbeiro, a comadre parteira, o Padre Mestre de Cerimônias e o Pe. Cabeça. Esses personagens usam o rito como ocasião social, sem ter o sentido íntimo da fé. A religião também não orienta a conduta: predominam a malandragem, o favor, o jeitinho e a acomodação entre ordem e desordem. A sociedade é um "mundo sem forma", em que a moral religiosa não disciplina as relações. Sim: religiosidade de aparato e de acomodação, sem moral social forte, como em Sérgio Buarque.

b) Sim, os juízos se exemplificam nesse trecho de Memórias póstumas de Brás Cubas. Na infância e na juventude de Brás, a religião aparece como formalidade e como convenção social, sem sentimento profundo. Os pais o educam sem rigor moral, e o menino é mimado, autorizado a ser cruel e tirano com escravos e criados, como no episódio em que cavalga o moleque Prudêncio. Ninguém condena isso em nome de princípios religiosos. A Igreja serve ao prestígio e ao rito: o ensino é superficial, e a moral se adapta aos interesses da família, com transigência e acordos. Machado ironiza essa religiosidade externa, incapaz de formar uma moral social sólida e dominada pelo interesse e pelo arbítrio dos poderosos. Sim: a formação de Brás mostra religião de fachada e transigente, que não impõe ordem moral à sociedade.

Assuntos: sérgio buarque de holanda, memórias de um sargento de milícias, memórias póstumas de brás cubas.

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