Questão 10 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2015
Leia o poema de Drummond para responder às questões relativas a dois versos de sua última estrofe.
ELEGIA 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
Considerando-se a “Elegia 1938” no contexto de Sentimento do mundo, explique sucintamente
a) a que se refere o eu lírico com a expressão “felicidade coletiva”?
b) o que simboliza, para o eu lírico, a “ilha de Manhattan”?
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Resolução comentada
a) Em Sentimento do mundo (1940), Drummond abandona o individualismo e passa a se preocupar com a coletividade, em um período de crise: ditaduras, a ascensão do nazifascismo, a iminência da Segunda Guerra e o desemprego. Nesse contexto, a "felicidade coletiva" é a utopia de uma sociedade justa e fraterna, em que a injustiça, a guerra e a desigualdade ("a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição") tenham sido superadas. Ela é a promessa de um futuro de bem-estar para todos, que o eu lírico, desiludido e sentindo-se impotente, acaba adiando "para outro século".
Resposta: a "felicidade coletiva" é a utopia de uma sociedade justa e igualitária, sem guerra, desemprego e desigualdade, que o eu lírico adia por se sentir impotente.
b) Manhattan, centro financeiro de Nova York, simboliza o capitalismo e o poder econômico dos Estados Unidos. É a "Grande Máquina", o sistema que sustenta a ordem injusta e o mundo "caduco" no qual o eu lírico trabalha sem alegria. O verbo "dinamitar" mostra o desejo de destruir esse sistema para mudar o mundo. Como indivíduo isolado ("sozinho"), porém, ele não tem forças para isso, e daí vêm a resignação e a derrota que aceita no fim do poema.
Resposta: Manhattan simboliza o capitalismo e seu poder opressor, a ordem injusta que o eu lírico quer destruir, mas que, sozinho, não consegue abalar.
Assuntos: drummond, sentimento do mundo, interpretação de poema.
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