Questão 8 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2014
Considere o excerto abaixo, no qual o narrador de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, contempla a cidade de Paris.
(...) E por aquela doce tarde de maio eu saí para tomar no terraço um café cor de chapéu-coco, que sabia a fava.
Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos ônibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente, com toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele movimento indescontinuado e rude depressa entonteceu este espírito, por cinco quietos anos afeito à quietação das serras imutáveis. Tentava então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, ônibus que parara, fiacre que estacara num brusco escorregar da pileca; mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia, ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o ônibus — e, rápido, recomeçava o rolar retumbante.
a) No trecho “com toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas”, pode-se reconhecer a marca de qual escola literária? Justifique sucintamente sua resposta.
b) Tendo em vista que contemplar significa “fixar o olhar em (alguém, algo ou si mesmo), com encantamento, com admiração” (Dicionário Houaiss) ou “olhar, observar, atenta ou embevecidamente” (Dicionário Aurélio), qual é a experiência vivida pelo narrador, no excerto, e que sentido ela tem no contexto da época em que se passa a história narrada no romance?
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Resolução comentada
a) A marca é do Naturalismo (ou Realismo-Naturalismo), escola a que Eça de Queirós se filia em parte de sua obra. A expressão "escura humanidade formigando entre patas e rodas" animaliza os homens, comparando-os a formigas, e os mostra como massa anônima, quase mecânica, misturada a animais e veículos. Essa visão objetiva e até desumanizadora do indivíduo, tratado como parte de um meio que o determina, é típica do Naturalismo. O olhar, quase científico, observa o comportamento coletivo no ambiente urbano. Resposta: Naturalismo, pela animalização/coisificação do homem, visto como massa que formiga na cidade.
b) Embora o verbo contemplar sugira encantamento ou admiração, o narrador (Jacinto/Zé Fernandes, que volta a Paris depois de cinco anos nas serras) vive o oposto: estranhamento, atordoamento e desconforto. O movimento "indescontinuado e rude" o "entontece", e ele tenta em vão repousar o olhar em algo parado (um ônibus, um fiacre), mas tudo logo volta à agitação. Há, portanto, ironia no uso de contemplar: o que se esperaria como admiração se converte em incômodo.
No contexto da época (fim do século XIX), Paris é símbolo da civilização moderna, do progresso técnico, da pressa, do acúmulo de gente e de veículos. O trecho mostra a visão crítica do romance: a vida urbana moderna é frenética, massificante e desumanizante, em contraste com a quietação e a harmonia da vida natural nas serras, que o narrador passou a valorizar. Resposta: a experiência é de estranhamento e atordoamento diante do ritmo frenético da metrópole, o que, na época, expressa a crítica à civilização urbana moderna em contraste com a vida serena do campo.
Assuntos: eça de queirós, naturalismo, a cidade e as serras.
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