Questão 7 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2014

1º dia · Português

No breve “Prólogo da 3a edição” das Memórias póstumas de Brás Cubas, assinado pelo autor, Machado de Assis, constava o seguinte trecho:

Capistrano de Abreu, noticiando a publicação do livro, perguntava: “As Memórias póstumas de Brás Cubas são um romance?” Macedo Soares, em carta que me escreveu por esse tempo, recordava amigamente as Viagens na minha terra. Ao primeiro respondia já o defunto Brás Cubas (como o leitor viu e verá no prólogo dele que vai adiante) que sim e que não, que era romance para uns e não o era para outros. Quanto ao segundo, assim se explicou o finado: “Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo”. Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garrett na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida.

O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama “rabugens de pessimismo”. Há na alma deste livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir dos seus modelos. É taça que pode ter lavores de igual escola, mas leva outro vinho.

Machado de Assis

Considerando esse trecho no contexto da obra à qual se incorpora, atenda ao que se pede.

a) Identifique um aspecto das Memórias póstumas de Brás Cubas capaz de ter suscitado a dúvida expressa por Capistrano de Abreu. Explique resumidamente.

b) Em que consistem os “lavores de igual escola”, a que se refere o autor, no final do trecho? Explique sucintamente.

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Resolução comentada

a) A dúvida de Capistrano de Abreu nasce do fato de que as Memórias póstumas fogem ao molde do romance realista e romântico tradicional. A narrativa não segue uma trama linear, com começo, meio e fim e uma intriga central bem amarrada. Ela é fragmentada, em capítulos curtíssimos, cheios de digressões, de comentários do narrador, de interpelações ao leitor e de capítulos que quase nada contam, como o dos chapéus ou o composto só de pontuação. Além disso, o narrador é um defunto-autor, o que rompe a verossimilhança convencional. Tudo isso dá ao livro um caráter "difuso", de mistura de memória, ensaio e crônica, e levou o crítico a perguntar se se tratava mesmo de um romance. Basta citar um desses traços, por exemplo a estrutura fragmentária e digressiva.

Resposta: a narrativa fragmentada e digressiva, com narrador que interrompe a história, dialoga com o leitor e foge da trama linear, contraria o modelo tradicional de romance.

b) "Lavores" são os trabalhos de ornamento da taça, ou seja, os recursos formais. Machado usa a metáfora da taça (a forma) e do vinho (o conteúdo, a visão de mundo). Os "lavores de igual escola" são os procedimentos de forma que Brás Cubas herda de Sterne (Tristram Shandy), de Xavier de Maistre (Viagem à roda do meu quarto) e de Garrett (Viagens na minha terra). Entre eles estão a "forma livre", a narrativa digressiva, o humor e a ironia, a conversa com o leitor, a quebra da linearidade e a liberdade de composição. Segundo Machado, nisso o livro se filia a seus modelos, mas o "vinho", o pessimismo amargo e áspero, é outro e é só dele.

Resposta: são os recursos formais herdados de Sterne, Xavier de Maistre e Garrett: forma livre, digressão, humor e ironia, diálogo com o leitor. Eles se opõem ao "vinho", o conteúdo pessimista, que é original de Machado.

Assuntos: machado de assis, memórias póstumas de brás cubas, narrativa digressiva.

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