Questão 9 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2014
Observe o seguinte trecho de Til, de José de Alencar, no qual o narrador caracteriza a personagem Berta:
Contradição viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação. A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela.
a) Segundo o narrador, Berta é uma “contradição viva”, cujo “gênio é o ser e o não ser”. Como essa característica da personagem se relaciona à principal função que ela desempenha na trama do romance?
b) Considerando a expressão “anjo-demônio” no contexto cultural da época em que foi escrito o romance, justifica-se o fato de o narrador classificá-la como “antítese banal”? Explique resumidamente.
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Resolução comentada
a) Em Til (1872), Berta é a jovem de gênio instável, ora criança travessa, ora mulher sedutora, ora serena, ora tomada pela paixão. Essa ambiguidade a torna a figura que desestabiliza o enredo e move a ação: ela é o centro do triângulo amoroso, que envolve Afonso, Miguel e Linda, e o foco das tensões e dos mal-entendidos entre as personagens.
Sua personalidade dúbia a faz ser, ao mesmo tempo, objeto de desejo e fonte de conflito, pois ninguém consegue compreendê-la plenamente. Sua indefinição é também o que justifica a função de mediação entre o mundo urbano, civilizado, e o sertão, ligado à natureza e ao instinto. Berta é a personagem que concentra a oscilação entre o puro e o passional, o que mantém a trama em movimento.
Resposta: a contradição de Berta (graça e estouvamento, serenidade e paixão) faz dela a personagem que desencadeia e sustenta os conflitos amorosos e dramáticos da trama.
b) Sim, se justifica. A oposição entre o anjo e o demônio, entre a mulher pura e a mulher fatal, era um lugar-comum da cultura romântica. A literatura do século XIX, especialmente a romântica, tendia a dividir as mulheres em tipos: de um lado a donzela angelical, pura e idealizada, de outro a sedutora perigosa, ligada à paixão e ao pecado. Esse esquema estava presente em inúmeros romances, inclusive nos do próprio Alencar (Aurélia e Lúcia, por exemplo).
Por ser um estereótipo tão repetido, o narrador o chama de "banal". Ao mesmo tempo, diz que em Berta a antítese "torna-se realidade": a personagem a encarna de modo vivo e complexo, e não como mero clichê.
Resposta: sim; a antítese anjo-demônio era um estereótipo recorrente no Romantismo, daí ser "banal", mas Berta lhe dá concretude.
Assuntos: José de Alencar, Til, Romantismo.
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