Questão 9 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2013

1º dia · Português

Embora seja, com frequência, irônico a respeito do livro e de si mesmo, o narrador das Viagens na minha terra não deixa de declarar ao leitor que essa obra é “primeiro que tudo”, “um símbolo” , na medida em que, diz ele, “uma profunda ideia (...) está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzita que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada (...)”. Tendo em vista essas declarações do narrador e considerando a obra em seu contexto histórico e literário, responda ao que se pede.

a) Do ponto de vista da história social e política de Portugal, o que está simbolizado nessa viagem?

b) Considerada, agora, do ponto de vista da história literária, o que essa obra de Garrett representa na evolução da prosa portuguesa? Explique resumidamente.

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Resolução comentada

a) Garrett escreve em 1843-46, depois da Revolução Liberal de 1820 e da guerra civil (1832-34) entre liberais (constitucionalistas, de D. Pedro) e absolutistas (miguelistas). A viagem de Lisboa a Santarém, com suas paradas e digressões, simboliza o percurso de Portugal nesse período de transição.

O narrador discute o vale de Santarém, a decadência do campo e o contraste entre o Portugal tradicional, rural, ligado ao clero, à nobreza e ao passado, e o Portugal moderno, burguês, industrial e utilitário (os "barões"). A novela de Joaninha, a "menina dos rouxinóis", e de Carlos, que passa do liberalismo à acomodação, representa o drama de um país dividido, que não consegue conciliar tradição e progresso, e a crítica ao liberalismo que se tornou materialista, oportunista e desencantado. A "profunda ideia" é, portanto, a reflexão sobre o destino de Portugal após a revolução liberal. A viagem simboliza a trajetória de Portugal pós-revolução liberal, dividido entre o passado tradicional e a modernização burguesa, com crítica aos rumos do liberalismo.

b) Na história literária, as Viagens na minha terra são marco do Romantismo português e da renovação da prosa. Garrett rompe com a prosa clássica, retórica e rígida, e cria um estilo moderno, próximo da fala, flexível, natural e espontâneo, que mistura registros.

A obra funde gêneros: relato de viagem, crônica, ensaio, crítica política e literária, novela sentimental e digressões, com narrador intrusivo, que conversa com o leitor, é irônico e se comenta a si mesmo. A matéria é nacional (paisagem, história, costumes). Essa liberdade formal e a ironia abriram caminho para a prosa posterior, inclusive o Realismo (Eça de Queirós). A obra funda a prosa moderna portuguesa: linguagem coloquial e fluente, mistura de gêneros, narrador irônico e assunto nacional, em ruptura com o modelo clássico.

Assuntos: garrett, viagens na minha terra, romantismo português.

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