Questão P07 da 2ª fase da FUVEST 2009

2ª fase · Português

Leia o trecho de abertura de Memórias de um sargento de milícias e responda ao que se pede.

Era no tempo do rei.

Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo – O canto dos meirinhos –; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores.

Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias.

a) A frase “Era no tempo do rei” refere-se a um período histórico determinado e possui, também, uma conotação marcada pela indeterminação temporal. Identifique tanto o período histórico a que se refere a frase quanto a mencionada conotação que ela também apresenta.

b) No trecho aqui reproduzido, o narrador compara duas épocas diferentes: o seu próprio tempo e o tempo do rei. Esse procedimento é raro ou freqüente no livro? Com que objetivos o narrador o adota?

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Resolução comentada

a) A frase remete ao período em que o Brasil abrigou a corte portuguesa, isto é, o Rio de Janeiro de D. João VI, a partir de 1808 (o Brasil ainda era Reino Unido, após a chegada da família real). A obra se passa nesse Rio colonial e joanino, nas primeiras décadas do século XIX, antes da Independência.

Ao mesmo tempo, "Era no tempo do rei" tem a cadência das fórmulas dos contos populares e das histórias de tradição oral ("Era uma vez..."). Por isso a frase também traz indeterminação temporal: "o rei" sem nome e sem data cria um tempo vago, quase lendário, que dá ao relato um tom de narrativa tradicional e de anedota. O leitor sabe a época, mas o narrador a evoca como um passado difuso.

Resposta: período joanino (Rio de Janeiro com a corte de D. João VI, início do século XIX); a conotação é de tempo indefinido, à maneira de "era uma vez" dos contos populares.

b) O procedimento é frequente no livro. Ao longo da narrativa, o narrador volta a contrapor o "tempo do rei" ao seu presente, o Segundo Reinado, comentando costumes, tipos sociais, festas, religiosidade, a justiça e as instituições, sempre notando que as coisas mudaram.

Seus objetivos são:

  1. situar e explicar ao leitor contemporâneo os costumes de uma época já passada, dando caráter de crônica de costumes e de documento do cotidiano do Rio;
  2. criar efeito irônico e humorístico, como no trecho dos meirinhos, "sombra caricata" dos de antes, cuja importância é exagerada de forma satírica, o que faz da comparação uma crítica à sociedade (a mania de demandas, a burocracia judiciária, a pompa vazia);
  3. aproximar-se do leitor, em tom de conversa, firmando a perspectiva de um narrador que comenta e julga o que conta.

Resposta: é um procedimento frequente; serve para explicar costumes do passado ao leitor e, com ironia e humor, criticar a sociedade e suas instituições.

Assuntos: memórias de um sargento de milícias, narrador e ironia, romantismo brasileiro.

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