Questão P08 da 2ª fase da FUVEST 2009

2ª fase · Português

Leia o trecho de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, e responda ao que se pede.

Então, de trás da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, solenemente:
— Bendito seja o Pai dos Pobres!
E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. E mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.
— Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à pobreza.
O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía, cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta.
— A mão!
E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando:
— Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!
[...] Eu então debrucei a face para ele, mais em confidência:
— Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos sítios, que el-rei D. Sebastião voltara?

Eça de Queirós. A cidade e as serras.

a) No trecho, Jacinto é chamado, pelo velho, de “Pai dos Pobres”. Essa qualificação indica que Jacinto mantinha com os pobres da serra uma relação democrática e igualitária? Justifique sua resposta.

b) Tendo em vista o contexto da obra, explique sucintamente por que o narrador, no final do trecho, se refere a “el-rei D. Sebastião”.

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Resolução comentada

a) Não. "Pai dos Pobres" indica uma relação paternalista e hierárquica, não igualitária. O pai é quem está acima: protege, dá e socorre, e os filhos recebem e agradecem. No trecho, o velho confirma isso ao chamar Jacinto de "senhor de Tormes", título senhorial, e ao dizer "mão real, mão de dar, mão que vem de cima". A mão "que vem de cima" é a do benfeitor superior, que concede a caridade, e a expressão "mão real" lhe dá ares de realeza. Jacinto, o rico proprietário que passou a ajudar a "pobreza" da serra, é visto como benfeitor quase régio, e os pobres como beneficiários dependentes. Não há troca entre iguais, e sim dádiva de cima para baixo, com gratidão e reverência.

Resposta: a qualificação expressa paternalismo e hierarquia (benfeitor superior e pobres dependentes), não uma relação democrática e igualitária.

b) D. Sebastião, rei de Portugal desaparecido em 1578 na batalha de Alcácer-Quibir, tornou-se objeto do mito sebastianista: a crença popular de que ele não morrera e voltaria para restaurar a grandeza e a justiça do reino. Na obra, o tio João Torrado é o "profeta da serra", figura do povo rústico, supersticioso e crédulo, que espalhava que o rei voltaria. O narrador (Zé Fernandes) pergunta a ele se é verdade que anda dizendo isso, pois queria confirmar a fama de profeta sebastianista do velho. A referência mostra o apego da gente simples da serra a crenças e mitos tradicionais, ainda vivos no fim do século XIX. Também reforça o tom irônico e o contraste com Jacinto, que veio da civilização urbana e tecnológica de Paris, e a ligação do mito com a figura do salvador, que se estende a Jacinto como benfeitor.

Resposta: refere-se ao mito sebastianista, crença popular no retorno do rei desaparecido em Alcácer-Quibir, difundida pelo profeta João Torrado entre o povo da serra.

Assuntos: a cidade e as serras, eça de queirós, sebastianismo.

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