Questão H04 da 2ª fase da FUVEST 2009
E [os índios] são tão cruéis e bestiais que assim matam aos que nunca lhes fizeram mal, clérigos, frades, mulheres... Esses gentios a nenhuma coisa adoram, nem conhecem a Deus.
Padre Manuel da Nóbrega, em carta de 1556.
(...) Não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra.
(...) Esses povos não me parecem, pois, merecer o qualitativo de selvagens somente por não terem sido se não muito pouco modificados pela ingerência do espírito humano e não haverem quase nada perdido de sua simplicidade.
Michel de Montaigne. Ensaios, 1588.
a) Compare as concepções dos dois autores sobre as populações nativas do Brasil.
b) Indique a concepção que prevaleceu e quais as conseqüências para a população indígena.
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Resolução comentada
a) Os dois textos tratam do mesmo tema, o indígena americano, mas partem de perspectivas opostas.
O jesuíta Manuel da Nóbrega, em 1556, vê os índios como "cruéis e bestiais", ligados à violência (matam clérigos, frades, mulheres) e sem religião ("a nenhuma coisa adoram", "não conhecem a Deus"). É uma visão etnocêntrica: o parâmetro é a cultura e a fé cristãs europeias, e o nativo é medido pelo que lhe falta. Isso justifica a missão de converter e "civilizar" esses povos.
O humanista francês Montaigne, em 1588, faz uma relativização cultural. Para ele, "cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra", ou seja, a barbárie é uma questão de ponto de vista. Os nativos não seriam selvagens, pois conservam simplicidade e pouco foram alterados pela intervenção humana, o que remete à ideia do homem natural, do "bom selvagem". A crítica implícita recai sobre a sociedade europeia, e não sobre o índio.
Resumindo: Nóbrega vê inferioridade e necessidade de conversão; Montaigne vê diferença e até certa pureza.
Nóbrega apresenta o índio como bárbaro, cruel e sem fé, a ser convertido, numa visão etnocêntrica; Montaigne o considera apenas diferente, simples e não selvagem, relativizando a noção de barbárie.
b) Prevaleceu, na colonização, a concepção de Nóbrega: o europeu se achava superior e o índio era visto como pagão e bárbaro a ser "civilizado". Essa visão justificou a ação colonizadora.
Suas consequências para os indígenas foram:
- Escravização e exploração do trabalho, inclusive com as guerras justas contra os grupos que resistiam, e o aprisionamento por bandeirantes e colonos.
- Catequese e aculturação: os jesuítas reuniam os índios em aldeamentos, impondo-lhes a religião cristã, a língua e os costumes europeus, o que desestruturou suas culturas.
- Perda de terras com o avanço da colonização.
- Grande redução demográfica, por conta de guerras, trabalho forçado e epidemias de doenças trazidas pelos europeus (varíola, sarampo), além do extermínio de povos inteiros.
Prevaleceu a visão etnocêntrica de Nóbrega, o que resultou em escravização, catequese e aculturação forçada, perda de terras e drástica redução da população indígena.
Assuntos: colonização do brasil, visão europeia sobre o indígena, catequese jesuítica.
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