PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão P07 da 2ª fase da FUVEST 2007

2ª fase · Português · Literatura: Trovadorismo e Humanismo

E chegando à barca da glória, diz ao Anjo:

Brísida. Barqueiro, mano, meus olhos,
prancha a Brísida Vaz!
Anjo. Eu não sei quem te cá traz...
Brísida. Peço-vo-lo de giolhos!
Cuidais que trago piolhos,
anjo de Deus, minha rosa?
Eu sou Brísida, a preciosa,
que dava as môças aos molhos.

A que criava as meninas
para os cônegos da Sé...
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olhos de perlinhas finas!
(...)

Gil Vicente, Auto da barca do inferno.
(Texto fixado por S. Spina)

a) No excerto, a maneira de tratar o Anjo, empregada por Brísida Vaz, relaciona-se à atividade que ela exercera em vida? Explique resumidamente.

b) No excerto, o tratamento que Brísida Vaz dispensa ao Anjo é adequado à obtenção do que ela deseja — isto é, levar o Anjo a permitir que ela embarque? Por quê?

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Resolução comentada

a) Sim. Brísida Vaz foi alcoviteira e aliciadora de moças: ela mesma diz que "dava as môças aos molhos" e "criava as meninas para os cônegos da Sé". O vocabulário que usa com o Anjo é o da sedução e da adulação, com diminutivos e vocativos afetuosos: "mano", "meus olhos", "minha rosa", "meu amor", "minhas boninas", "olhos de perlinhas finas". É a linguagem de quem vivia de persuadir e agradar, e ela a aplica ao Anjo como se ele fosse mais um cliente ou intermediário a convencer. Esse tom amaneirado e lisonjeiro denuncia o ofício exercido em vida.

Portanto, o modo de tratar o Anjo decorre da atividade dela. Sim: o tratamento melífluo, cheio de afagos e galanteios, reproduz a linguagem da alcovitaria.

b) Não. O Anjo representa a justiça divina e o critério de salvação é a conduta em vida, não a lisonja. Os galanteios e a intimidade fingida ("mano", "meu amor") são inadequados ao interlocutor, pois o Anjo é uma figura celestial, que exige respeito e arrependimento. Pior: ao se apresentar como "Brísida, a preciosa, que dava as môças aos molhos", ela se vangloria justamente do pecado que a condena, em vez de reconhecê-lo. Isso, em vez de comover o Anjo, confirma sua culpa. Ela também ignora que o Anjo já a recusara ("Eu não sei quem te cá traz"), e insiste com os mesmos expedientes de convencimento que usava na terra, sem eficácia ali.

Não é adequado: a adulação e a vanglória do próprio pecado não convencem o Anjo e só reforçam a condenação dela.

Assunto: Trovadorismo e Humanismo.

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