PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão P08 da 2ª fase da FUVEST 2007

2ª fase · Português · Literatura: Carlos Drummond de Andrade

A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
(...)

Carlos Drummond de Andrade, A rosa do povo.

a) Em A rosa do povo, o poeta se declara anticapitalista. Nos três primeiros versos do excerto, esse anticapitalismo se manifesta? Justifique sucintamente sua resposta.

b) De acordo com os dois últimos versos do excerto, como se manifesta, no campo da linguagem, o impasse de que fala o poeta? Explique resumidamente.

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Resolução comentada

a) Sim. O eu lírico se diz "preso à minha classe e a algumas roupas": ele reconhece que pertence à classe burguesa e que está condicionado por ela, e isso já é uma autocrítica de quem não se sente à vontade nesse lugar. A rua é "cinzenta", imagem da cidade massificada, opressiva e sem vida, e o branco de suas roupas o destaca, mas não o livra desse mundo. Por fim, "mercadorias espreitam-me" mostra os objetos de consumo como ameaça, quase como predadores à espreita. Ele vê o mundo capitalista dominado pela lógica da mercadoria, que gera "melancolias". A crítica ao capitalismo está, portanto, na denúncia da alienação, do consumo e do condicionamento de classe.

Resposta: sim, o anticapitalismo aparece na consciência de estar preso à sua classe, na rua cinzenta e na visão das mercadorias como ameaça.

b) O impasse do poeta é o de quem quer protestar e se revoltar, mas se vê sem armas e sem força diante de uma sociedade injusta. Na linguagem, isso aparece como a falta de comunicação. "Os muros são surdos": por mais que ele tente se explicar, não há quem o ouça, e sua palavra não encontra eco nem eficácia. Além disso, "sob a pele das palavras há cifras e códigos": a linguagem está corrompida, tomada pelos interesses do mercado (cifras, números, dinheiro) e por sentidos ocultos e convencionais. Assim, as palavras não dizem de modo transparente o que o poeta quer, e ele não consegue usá-las para expressar e transformar a realidade.

Resposta: o impasse é a impossibilidade de comunicar-se: ninguém o escuta (muros surdos) e as palavras estão contaminadas por cifras e códigos, de modo que a linguagem não exprime nem muda a realidade.

Assunto: Carlos Drummond de Andrade.

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