Questão 29 do ENEM 2022

1º dia · Linguagens, Códigos

Esaú e Jacó

Bárbara entrou, enquanto o pai pegou da viola e passou ao patamar de pedra, à porta da esquerda. Era uma criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe um solidéu natural, cuja borla era suprida por um raminho de arruda. Já vai nisto um pouco de sacerdotisa. O mistério estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem também lúcidos e agudos, e neste último estado eram igualmente compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fora, prontos para nova entrada e outro revolvimento. Não te minto dizendo que as duas sentiram tal ou qual fascinação. Bárbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabelos cortados, por lhe haverem dito que bastava.

— Basta, confirmou Bárbara. Os meninos são seus filhos?

— São.

ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

No relato da visita de duas mulheres ricas a uma vidente no Morro do Castelo, a ironia — um dos traços mais representativos da narrativa machadiana — consiste no

  1. A
    modo de vestir dos moradores do morro carioca.
  2. B
    senso prático em relação às oportunidades de renda.
  3. C
    mistério que cerca as clientes de práticas de vidência.
  4. D
    misto de singeleza e astúcia dos gestos da personagem.
  5. E
    interesse do narrador pelas figuras femininas ambíguas.
Resolução comentada

A ironia é a figura em que se diz uma coisa sugerindo outra, criando um contraste entre a aparência e a realidade. Vamos ver como isso aparece no trecho.

  1. A descrição de Bárbara começa com traços de simplicidade e pobreza: "criaturinha leve e breve", "chinelinha no pé", "fita enxovalhada" (suja, gasta), um "raminho de arruda" no lugar da borla.

  2. O narrador, porém, eleva a figura com humor: o penteado vira um "solidéu natural" e ele comenta que "já vai nisto um pouco de sacerdotisa". A humildade dos objetos é tratada como se fosse aparato ritual.

  3. O "mistério" está nos olhos, que ora são opacos, ora "lúcidos e agudos", e entram "pela gente abaixo" revolvendo o coração. Isso mostra uma personagem que parece ingênua, mas é perspicaz e calculista, capaz de ler e dominar as clientes.

  4. Por fim, Bárbara "interroga" as visitantes, que entregam retratos e cabelos, e ela confirma que "basta". Ela conduz a situação, enquanto as mulheres ricas ficam fascinadas.

A ironia está, portanto, na mistura de simplicidade (roupa, gestos modestos) e astúcia (olhar penetrante, controle da consulta), o que corresponde à alternativa D.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO trecho descreve só a roupa de Bárbara, não o modo de vestir dos moradores do morro, e isso não é a ironia.
  • BNão há foco em oportunidades de renda; a vidência aparece como cena, sem reflexão sobre ganho.
  • CO mistério está nos olhos da vidente, não nas clientes, e ele é a descrição, não a ironia.
  • EO narrador descreve Bárbara com ironia, mas isso não é interesse por figuras femininas ambíguas em geral; a alternativa não aponta o contraste que constitui a ironia.

Assuntos: ironia machadiana, interpretação de texto, romance realista.

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