Questão 41 do ENEM PPL 2019

1º dia · Linguagens, Códigos

— Não digo que seja uma mulher perdida, mas recebeu uma educação muito livre, saracoteia sozinha por toda a cidade e não tem podido, por conseguinte, escapar à implacável maledicência dos fluminenses. Demais, está habituada ao luxo, ao luxo da rua, que é o mais caro; em casa arranjam-se ela e a tia sabe Deus como. Não é mulher com quem a gente se case. Depois, lembra-te que apenas começas e não tens ainda onde cair morto. Enfim, és um homem: faze o que bem te parecer.

Essas palavras, proferidas com uma franqueza por tantos motivos autorizada, calaram no ânimo do bacharel. Intimamente ele estimava que o velho amigo de seu pai o dissuadisse de requestar a moça, não pelas consequências morais do casamento, mas pela obrigação, que este lhe impunha, de satisfazer uma dívida de vinte contos de réis, quando, apesar de todos os seus esforços, não conseguira até então pôr de parte nem o terço daquela quantia.

AZEVEDO, A. A dívida. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 20 ago. 2017.

O texto, publicado no fim do século XIX, traz à tona representações sociais da sociedade brasileira da época. Em consonância com a estética realista, traços da visão crítica do narrador manifestam-se na

  1. A
    caracterização pejorativa do comportamento da mulher solteira.
  2. B
    concepção irônica acerca dos valores morais inerentes à vida conjugal.
  3. C
    contraposição entre a idealização do amor e as imposições do trabalho.
  4. D
    expressão caricatural do casamento pelo viés do sentimentalismo burguês.
  5. E
    sobreposição da preocupação financeira em relação ao sentimento amoroso.
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Resolução comentada

O Realismo do fim do século XIX critica a sociedade burguesa, mostrando como interesses materiais e convenções sociais pesam mais que os sentimentos. Por isso, o que se pede é o traço em que o narrador expõe essa crítica.

No texto, o velho amigo aconselha o jovem bacharel a não se casar com a moça. Os argumentos dele são a má fama dela, o gosto pelo luxo e o fato de ela não ser "mulher com quem a gente se case". Ele lembra ainda que o rapaz "não tem onde cair morto".

No segundo parágrafo, o narrador revela o pensamento íntimo do bacharel. Ele fica satisfeito com o desestímulo, mas não por causa das "consequências morais do casamento". O motivo é a dívida de vinte contos de réis, da qual o casamento o obrigaria a cuidar, quando ele não tinha juntado nem um terço dessa quantia.

Ou seja, o dinheiro pesa mais que o amor: a preocupação financeira se sobrepõe ao sentimento pela moça. É essa inversão de valores que o narrador põe em evidência, de modo crítico.

As demais alternativas atribuem ao texto ideias que ele não traz: julgamento do narrador sobre a mulher solteira, ironia sobre a moral conjugal, idealização do amor ou sentimentalismo.

Alternativa E.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AA visão pejorativa sobre a moça é do velho amigo, uma personagem, e não do narrador; a crítica realista recai sobre o interesse material.
  • BO texto não ironiza os valores morais do casamento; o bacharel até descarta as consequências morais como motivo.
  • CNão há idealização do amor nem conflito com o trabalho; o problema é a dívida e a falta de dinheiro.
  • DNão há sentimentalismo burguês caricaturado; o que aparece é o cálculo financeiro, o oposto do sentimentalismo.

Assuntos: realismo, interpretação de texto, crítica social.

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