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PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 38 da UNICAMP 2027

1ª fase · Literatura: Ironia, humor e sátira

O excerto abaixo pertence ao conto A viúva Montiel, do livro Os funerais da Mamãe Grande.

“Na verdade, seu negócio não era a morte dos pobres, mas sim a expulsão dos ricos. Depois que o alcaide perfurava suas portas a tiros e lhes dava um prazo para abandonar o lugarejo, José Montiel lhes comprava as terras e o gado por um preço que ele mesmo se encarregava de fixar.
— Não seja bobo — dizia-lhe a mulher. — Você vai arruinar-se ajudando-os para que não morram de fome em outro lugar e eles nunca irão agradecer-lhe.”

(MÁRQUEZ, G. G. A viúva Montiel. IN: Os funerais da Mamãe Grande. Tradução de Edson Braga. Rio de Janeiro: Record, 2023, p. 86–87.)

Sobre essa passagem, considerada no contexto geral do conto, é correto afirmar que

  1. A
    o narrador faz uso do paradoxo, construído por meio da oposição entre ricos e pobres, morte e expulsão, tiros e compra.
  2. B
    a personagem faz uso do paradoxo, já que, segundo seu raciocínio, a ajuda leva à ruína e não à gratidão.
  3. C
    o narrador faz uso da ironia, que se constrói ao mostrar a personagem em uma situação na qual ela ignora algo que é do conhecimento do leitor.
  4. D
    a personagem faz uso da ironia, uma vez que atribui ao marido uma intenção que sabe não ser a dele, buscando um efeito cômico.
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
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Resolução comentada

O trecho mostra José Montiel, que enriquece pela violência: o alcaide (a mando dele) ameaça os ricos a tiros, e Montiel lhes compra terras e gado por um preço que ele mesmo fixa. Sua esposa, porém, enxerga a situação como se ele fosse um benfeitor tolo, que "ajuda" os expulsos para que não passem fome em outro lugar, e que nunca será agradecido.

O que o narrador faz é opor a aparência à realidade. A mulher fala com sinceridade e acredita que o marido é generoso. O leitor, informado pelo narrador de que o "negócio" dele é expulsar os ricos e ficar com seus bens, sabe que não se trata de ajuda, mas de exploração. Essa distância entre o que a personagem sabe e o que o leitor sabe é a ironia dramática (ou situacional).

Análise das alternativas:

  1. Paradoxo é uma ideia aparentemente contraditória que revela uma verdade. Aqui o narrador não constrói isso. As oposições citadas apenas descrevem os fatos.
  2. A fala da mulher não é paradoxal: ela só expressa uma opinião equivocada sobre o marido.
  3. A mulher não é irônica, pois acredita no que diz. Também não há intenção cômica.

Portanto, a ironia vem do narrador, que expõe a personagem ignorando algo que o leitor conhece.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AAs oposições (ricos/pobres, tiros/compra) descrevem fatos e não formam um paradoxo; o efeito do trecho é irônico.
  • BA mulher não faz paradoxo: apenas opina, equivocadamente, que ajudar levaria à ruína sem gratidão.
  • DA mulher é sincera e ignora a verdadeira intenção do marido; não atribui a ele algo que sabe ser falso, nem busca comicidade.

Assunto: Ironia, humor e sátira.

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Fonte: Comvest/Vestibular Unicamp 2027. Prova oficial ↗