PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 34 da UNICAMP 2027
Ao publicar Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, o autor Lima Barreto incluiu a seguinte advertência:
"Encarregou-me o meu antigo colega de escola, e, hoje, de ofício, Augusto Machado, de publicar-lhe esta pequena obra. Antes me havia ele pedido que a revisse. Se bem que nela nada encontrasse para retocar, não me pareceu de rigor a classificação de biografia que o meu amigo Machado lhe deu. Faltam-lhe, para isso, a rigorosa exatidão de certos dados, a explanação minuciosa de algumas passagens da vida do principal personagem e as datas indispensáveis em trabalho que queira ser classificado de tal forma; e não só por isso, penso assim, como também pelo fato de muito aparecer e, às vezes, sobressair demasiado, a pessoa do autor.
Aqui e ali, Machado trata mais dele do que do seu herói. Julgando que tão insignificantes defeitos eram de desprezar em presença dos reais méritos do pequeno livro, apressei-me em conseguir a sua publicação, certo de que, com isso, irei animar uma acentuada vocação literária que se manifesta, de modo inequívoco, nas páginas que se seguem."
(BARRETO, L. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2023, p. 51.)
Esse trecho da obra
- Anão participa da constituição de sua ficcionalidade, sendo um paratexto editorial cujo objetivo é informar ao leitor que o verdadeiro autor é Augusto Machado, e não Lima Barreto.
- Bexpressa as concepções literárias de Lima Barreto, ao criticar o que ele chama de “insignificantes defeitos” do livro, o qual valorizava a discrição e objetividade do narrador.
- Cnão expressa as concepções literárias de Lima Barreto relativas ao Modernismo que se iniciava, o qual estabelecia a separação entre gêneros literários, como a biografia e o romance.
- Dparticipa da constituição da ficcionalidade da obra, sendo Augusto Machado o seu personagem-narrador e o autor fictício da narrativa, a quem Lima Barreto atribui a autoria.
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Resolução comentada
O trecho é uma advertência que abre o livro, assinada por um suposto amigo e revisor de Augusto Machado. Esse recurso é conhecido como autor fictício (ou ficção do manuscrito encontrado): o autor real, Lima Barreto, finge ser apenas o editor de um texto escrito por outra pessoa.
Observe os indícios no próprio texto:
- O prefaciador diz que Machado lhe pediu que revisasse a obra e que lhe incumbiu de publicá-la.
- Ele discute a classificação de "biografia" dada por Machado e aponta que falta exatidão e datas, além de o autor aparecer demais: "Machado trata mais dele do que do seu herói".
- Com isso, Machado passa a ser o narrador-personagem das páginas seguintes, que falam do velho Gonzaga de Sá, e a advertência faz parte do jogo ficcional, pois cria um autor e um contexto de publicação que não existem de fato.
Assim, o trecho não é um paratexto neutro: ele ajuda a construir a ficcionalidade da obra. Isso elimina a alternativa A, que o trata como informação real.
A B atribui a Lima Barreto uma crítica literária que, na verdade, é fala do prefaciador fictício, e ainda diz que o livro valorizava a discrição do narrador, o oposto do que o texto afirma (o autor aparece demais). A C fala em Modernismo e separação de gêneros, sem base no texto.
Portanto, a alternativa que descreve o recurso é a D.
Alternativa D.
Por que as outras alternativas estão erradas
- ATrata a advertência como paratexto informativo real, quando ela é parte do jogo ficcional, e Lima Barreto continua sendo o autor.
- BConfunde a voz do prefaciador fictício com a de Lima Barreto e inverte o sentido: o narrador aparece demais, não é discreto.
- CIntroduz o Modernismo e a separação de gêneros, que não aparecem no texto; ele só discute se a obra é biografia.
Assuntos: Lima Barreto, Metalinguagem e metaficção.
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Fonte: Comvest/Vestibular Unicamp 2027. Prova oficial ↗