PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 30 da UNICAMP 2027
Fui ver uma peça no teatro Cultura Artística: Para Sempre, de Maria Adelaide Amaral. No palco, um casal homossexual: Max (professor universitário vivido por Paulo Autran) e Tony (bancário interpretado por Celso Frateschi). Representavam uma relação assimétrica em idade, renda e cultura. Em determinado momento, o jovem diz que não se sentia atacado quando na periferia (onde vivia sua mãe) uma vizinha o chamava de “veado”. Ele se ofendia, realmente, quando algum amigo intelectual e sofisticado do marido elogiava “o café que ele passava”. Incrível sutileza de Maria Adelaide. O ataque direto e virulento da periferia era algo possível de ser respondido: pertencia a um código binário da comunicação. O elogio sutil com uma etiqueta de gênero (“você é o de menor importância, o doméstico, o que faz café”) era mais agressivo. “Você passa bem café” é um louvor-prisão, um rebaixamento naquele universo onde o valor era dado pelos livros lidos/escritos. “Veado” estabelece um código de “eu” e “anti-eu”. “Passador de café hábil” empurra para um nada inferior na percepção de Tony. Ao primeiro insulto, se responde com algo defensivo; ao segundo, talvez, só possamos sorrir de forma amarela. Sutileza psicológica e textual: agredir com um elogio, preconceito com açúcar, ataque com punho de renda...
(Adaptado de KARNAL, L. Esperança no bom-senso. Cultura & Comportamento. O Estado de S. Paulo, 15/3/2026, C16.)
No texto, louvor-prisão consiste numa criação vocabular para designar uma
- Apostura discriminatória disfarçada de enaltecimento.
- Bofensa explícita motivada por preconceito.
- Cexpressão de empatia frente a uma agressão verbal.
- Dconduta defensiva diante de um falso elogio.
Você já respondeu questões neste aparelho. Crie sua conta grátis para guardar o histórico e refazer as que errou.
Resposta salva no seu histórico.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
A expressão "louvor-prisão" junta duas ideias: louvor (elogio) e prisão (aquilo que limita, encerra a pessoa num lugar). O próprio texto explica: "Você passa bem café" parece elogio, mas prende Tony ao papel doméstico, "o de menor importância", num meio em que o valor vem dos livros lidos e escritos.
O autor reforça a ideia com outras fórmulas: "agredir com um elogio", "preconceito com açúcar", "ataque com punho de renda". Em todas, a agressão vem embrulhada em gentileza.
O texto também contrapõe esse caso ao insulto "veado", que é direto e explícito e, por isso, pode ser respondido. O louvor-prisão é o oposto: é sutil, e a pessoa só consegue "sorrir de forma amarela".
Portanto, a criação vocabular designa uma postura discriminatória (que rebaixa e rotula por gênero) disfarçada de enaltecimento (o elogio ao café).
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BDescreve o insulto "veado", que é explícito; o louvor-prisão é justamente o ataque sutil, travestido de elogio.
- CNão há empatia no louvor-prisão; ele é uma agressão, não uma reação solidária a uma agressão.
- DConfunde o elogio com a reação a ele; o termo nomeia o elogio discriminatório, não a defesa de quem o recebe.
Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova
Fonte: Comvest/Vestibular Unicamp 2027. Prova oficial ↗