PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 81 da UNICAMP 2016
Para as questões 80 e 81, leia o texto abaixo. · Q
É possível fazer educação de qualidade sem escola
É possível fazer educação embaixo de um pé de manga? Não só é, como já acontece em 20 cidades brasileiras e em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique.
Decepcionado com o processo de “ensinagem”, o antropólogo Tião Rocha pediu demissão do cargo de professor da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) e criou em 1984 o CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento).
Curvelo, no Sertão mineiro, foi o laboratório da “escola” que abandonou mesa, cadeira, lousa e giz, fez das ruas a sala de aula e envolveu crianças e familiares na pedagogia da roda. “A roda é um lugar da ação e da reflexão, do ouvir e do aprender com o outro. Todos são educadores, porque estão preocupados com a aprendizagem. É uma construção coletiva”, explica.
O educador diz que a roda constrói consensos. “Porque todo processo eletivo é um processo de exclusão, e tudo que exclui não é educativo. Uma escola que seleciona não educa, porque excluiu alguns. A melhor pedagogia é aquela que leva todos os meninos a aprenderem. E todos podem aprender, só que cada um no seu ritmo, não podemos uniformizar.”
Nesses 30 anos, o educador foi engrossando seu dicionário de terminologias educacionais, todas calcadas no saber popular: surgiu a pedagogia do abraço, a pedagogia do brinquedo, a pedagogia do sabão e até oficinas de cafuné. Esta última foi provocada depois que um garoto perguntou: “Tião, como faço para conquistar uma moleca?” Foi a deixa para ele colocar questões de sexualidade na roda.
Para resolver a falência da educação, Tião inventou uma UTI educacional, em que “mães cuidadoras” fazem “biscoito escrevido” e “folia do livro” (biblioteca em forma de festa) para ajudar na alfabetização. E ainda colocou em uso termos como “empodimento”, após várias vezes ser questionado pelas comunidades: “Pode [fazer tal coisa], Tião?” Seguida da resposta certeira: “Pode, pode tudo”.
Aos 66 anos, Tião diz estar convicto de que a escola do futuro não existirá e que ela será substituída por espaços de aprendizagem com todas as ferramentas possíveis e necessárias para os estudantes aprenderem.
“Educação se faz com bons educadores, e o modelo escolar arcaico aprisiona e há décadas dá sinais de falência. Não precisamos de sala, precisamos de gente. Não precisamos de prédio, precisamos de espaços de aprendizado. Não precisamos de livros, precisamos ter todos os instrumentos possíveis que levem o menino a aprender.”
Sem pressa, seguindo a Carta da Terra e citando Ariano Suassuna para dizer que “terceira idade é para fruta: verde, madura e podre”, Tião diz se sentir “privilegiado” de viver o que já viveu e acreditar na utopia de não haver mais nenhuma criança analfabeta no Brasil. “Isso não é uma política de governo, nem de terceiro setor, é uma questão ética”, pontua.
(Qsocial, 09/12/2014. Disponível em http://www.cpcd.org.br/portfolio/e_possivel_fazer_educacao_de_qualidade_100_escola/.)
Em relação ao trecho “E ainda colocou em uso termos como ‘empodimento’, após várias vezes ser questionado pelas comunidades: ‘Pode [fazer tal coisa], Tião?’ Seguida da resposta certeira: ‘Pode, pode tudo’”, é correto afirmar:
- AA expressão “Seguida da resposta certeira” indica a elipse de uma outra expressão.
- BA criação da palavra “empodimento” é resultado de um processo: sufixação.
- CA repetição do verbo no enunciado “Pode, pode tudo” exemplifica o estilo reiterativo do texto.
- DO discurso direto presente no trecho tem a função de dar voz às comunidades.
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Resolução comentada
A elipse ocorre quando uma palavra ou expressão fica omitida, mas pode ser recuperada pelo contexto. No trecho, “Seguida da resposta certeira” não explicita o que foi seguido pela resposta de Tião.
O contexto permite recuperar essa informação: trata-se da pergunta feita pelas comunidades, “Pode [fazer tal coisa], Tião?”. Uma reconstrução possível seria: “A pergunta foi seguida da resposta certeira: ‘Pode, pode tudo’”. A concordância de “seguida”, no feminino singular, também ajuda a recuperar “pergunta”. Por isso, a alternativa A identifica corretamente uma expressão subentendida.
A alternativa B reduz a formação de “empodimento” à sufixação, desconsiderando o elemento inicial “em-”. Já a repetição de “pode” reforça a autorização dada por Tião, mas uma repetição localizada não basta para caracterizar o estilo de todo o texto, como afirma C.
Por fim, o discurso direto apresenta tanto a pergunta das comunidades quanto a resposta do educador. Nesse contexto, sua função principal é explicar a situação que motivou a criação de “empodimento”, e não simplesmente dar voz às comunidades, como propõe D.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BReduz a formação de “empodimento” à sufixação, desconsiderando o elemento inicial “em-”.
- CGeneraliza uma repetição localizada como característica do estilo de todo o texto.
- DO discurso direto explica a origem de “empodimento”, apresentando também a fala de Tião, e não apenas dando voz às comunidades.
Assuntos: Discurso direto, indireto e indireto livre, Formação de palavras e neologismos.
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Fonte: Comvest/Vestibular Unicamp 2016. Prova oficial ↗