PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 10 da UNICAMP 2015

1ª fase · Literatura: Graciliano Ramos

Texto-base das questões 09 a 10 · Q

Para as questões 9 e 10, considere o fragmento abaixo, extraído de Vidas secas, de Graciliano Ramos.

O pequeno sentou-se, acomodou-se nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender.

(Graciliano Ramos. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 57.)

No romance Vidas secas, a alteridade é construída ficcionalmente. Isso porque o narrador

  1. A
    impõe seu ponto de vista sobre a miséria social das personagens, desconsiderando a luta dessas personagens por uma vida mais digna.
  2. B
    permite conhecer o ponto de vista de cada uma das personagens e manifesta um juízo crítico sobre o drama da miséria social e econômica.
  3. C
    relativiza o universo social das personagens, uma vez que elas estão privadas da capacidade de comunicação.
  4. D
    analisa os dilemas de todas as personagens e propõe, ao final da narrativa, uma solução para o drama da miséria social e econômica.
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
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Resolução comentada

Alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de reconhecer e representar o ponto de vista de quem é diferente de nós. Em Vidas secas, o narrador em terceira pessoa faz isso com cada membro da família de Fabiano, e até com a cachorra Baleia, em discurso indireto livre: acessamos o que cada um pensa e sente, mesmo quando falam pouco.

No trecho, o menino mais novo tem "vocabulário minguado" e se comunica com Baleia por exclamações e gestos. O narrador mostra a interioridade dele e da cachorra, que "responde" com o rabo e a língua. Isso é dar voz ao outro, ainda que sem palavras.

Ao mesmo tempo, o narrador não é neutro: a descrição da seca, da fome e da exploração revela um juízo crítico sobre a miséria social e econômica do sertão.

Avaliando as alternativas:

  1. (A) falha porque o narrador não impõe seu ponto de vista; ele dá espaço ao das personagens, e a luta delas por dignidade (o sonho de Fabiano e Sinhá Vitória, por exemplo) aparece na obra.
  2. (C) falha porque a falta de palavras não impede a comunicação; o trecho mostra gestos e sons funcionando.
  3. (D) falha porque o romance não propõe solução para a miséria; termina com a família migrando, sem resolução.
  4. (B) reúne o acesso ao ponto de vista de cada personagem e a crítica social.

Alternativa B.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AAfirma que o narrador impõe seu ponto de vista e ignora a luta das personagens, o contrário do que ocorre no discurso indireto livre.
  • CDiz que as personagens não têm capacidade de comunicação, mas o trecho mostra comunicação por gestos e sons entre o menino e Baleia.
  • DAtribui ao narrador uma solução final para a miséria, que o romance não apresenta.

Assuntos: Graciliano Ramos, Narrador e foco narrativo.

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Ver como caiu na prova Questão 10 no caderno Q da UNICAMP 2015

Fonte: Comvest/Vestibular Unicamp 2015. Prova oficial ↗