Questão 9 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2010
O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender.
Graciliano Ramos, Vidas secas.
Considere as seguintes afirmações sobre este trecho de Vidas secas, entendido no contexto da obra, e responda ao que se pede.
a) No trecho, torna-se claro que a escassez vocabular do menino contribui de modo decisivo para ampliar as diferenças que distinguem homens de animais. Você concorda com essa afirmação? Justifique, com base no trecho, sua resposta.
b) Nesse trecho, como em outros do mesmo livro, é por exprimir suas emoções e sentimentos pessoais a respeito da pobreza sertaneja que o narrador obtém o efeito de contagiar o leitor, fazendo com que ele também se emocione. Você concorda com a afirmação? Justifique sua resposta.
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Resolução comentada
a) Não concordo. No trecho, a pobreza de vocabulário do menino não amplia a distância entre homens e animais; ela a reduz. Como as palavras lhe faltam, o menino recorre a "exclamações e gestos", formas de expressão não verbais, que a cachorra consegue acompanhar. Baleia, por sua vez, "respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender". Forma-se assim uma comunicação possível entre os dois, baseada em gestos e sons. A comparação com o papagaio, que "morrera no tempo da seca", reforça a ideia: o menino tem vocabulário tão limitado quanto o de uma ave que só repete sons. No contexto de Vidas secas, a condição social dos retirantes os aproxima dos bichos. Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos mal falam e quase não se comunicam entre si, enquanto Baleia é quase um membro da família, com pensamentos e sentimentos humanizados. Não concordo: a escassez vocabular aproxima o menino do animal, pois ambos se comunicam por gestos e sons.
b) Não concordo. O narrador de Vidas secas é em terceira pessoa e mantém distanciamento, sem declarar suas emoções nem seus sentimentos pessoais sobre a miséria sertaneja. No trecho, ele descreve com objetividade e economia: a cena é narrada em tom seco, sem adjetivos de comoção nem comentários de piedade. O efeito emotivo vem dos fatos apresentados, e não de uma confissão de sentimentos do narrador. O leitor se comove ao perceber a carência de linguagem do menino, que só tem a cachorra como interlocutora, e a precariedade em que vive a família. O mesmo ocorre em outros momentos do livro, como a morte de Baleia. A narração impessoal, em discurso indireto livre, acompanha a consciência das personagens sem sentimentalismo, e isso torna a denúncia social mais forte. Não concordo: o efeito emotivo resulta da narração objetiva e contida, que expõe os fatos sem o narrador exprimir emoções próprias.
Assuntos: vidas secas, graciliano ramos, narrador e linguagem.
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