Questão 8 (2º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2025
Texto 1
A relação entre o homem e a mulher consiste no fato de que, por natureza, um é superior e a outra inferior, um é governante e a outra, governada. [...] A moderação não pertence da mesma forma ao homem e à mulher, nem tampouco a coragem e a justiça [...] A relação entre homem e mulher é de permanente desigualdade. [...] Em todas as situações, aplica-se bem o verso do poeta: “o silêncio dá encanto à mulher”, mas não ao homem.
(Aristóteles, Política, [século IV a.C.]. Livro I. Lisboa: Vega, 1988.)
Texto 2
“Na sua natureza particular, a fêmea é um ser deficiente e falho. Porque a virtude ativa, que está no sémen do macho, tende a produzir um ser perfeito semelhante a si, do sexo masculino.”
(São Tomás de Aquino. Suma Teológica. Questão 92, artigo 1, Resposta à primeira Objeção [século XIII]. São Paulo: Edições Loyola, 2005, p. 761.)
Texto 3
“Filósofos, poetas e moralistas, e a lista poderia ser bem longa, todos parecem falar com a mesma voz para chegar à conclusão de que a mulher é profundamente má e inclinada ao vício. [...] Eu, que nasci mulher, pus-me a refletir sobre a minha conduta e pensei também em outras tantas mulheres com quem convivi, tanto as princesas e grandes damas, quanto as de média e pequena condições [...]: procurei examinar em minha alma e consciência se o testemunho reunido de tantos homens ilustres poderia ser verdadeiro. Mas, pelo meu conhecimento e consciência, [...] não conseguia compreender, nem admitir a legitimidade de tal julgamento sobre a natureza e a conduta das mulheres”.
(Christine de Pizan. A Cidade das Damas [século XV]. Florianópolis: Editora Mulheres, 2012. Livro Primeiro, capítulo I, p. 59.)
a) Compare os textos 1 e 2 no que diz respeito ao posicionamento dos filósofos Aristóteles e Tomás de Aquino sobre a mulher. Explique por que, para Aristóteles, a relação entre o homem e a mulher é de permanente desigualdade e qual é o sentido do verso mencionado.
b) Considerando os textos 1, 2 e 3, explique a afirmação de Christine de Pizan de que filósofos, poetas e moralistas “parecem falar com a mesma voz”. Explicite o argumento de Pizan a respeito da legitimidade desse julgamento sobre a natureza e a conduta das mulheres.
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Resolução comentada
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a) Os dois filósofos concordam em que a mulher é inferior ao homem por natureza. Aristóteles, no texto 1, diz que a relação entre os dois é a de governante e governada, de superior e inferior. Tomás de Aquino, no texto 2, retoma a ideia e a aprofunda: a fêmea seria um ser "deficiente e falho", resultado de uma falha da virtude ativa do sêmen masculino, que tenderia a gerar um ser perfeito, do sexo masculino. A diferença está na ênfase. Aristóteles destaca a hierarquia política e moral, com virtudes distintas para cada sexo. Tomás de Aquino destaca a imperfeição biológica, ou ontológica, da mulher, num quadro teológico e cristão que herda o aristotelismo.
Para Aristóteles, a desigualdade é permanente porque tem fundamento na natureza e não em circunstâncias ou costumes. Se a mulher é inferior por natureza, a condição dela não muda: a deliberação e a capacidade de mando são do homem, e a ela cabe obedecer. Por isso a moderação, a coragem e a justiça também seriam diferentes em cada sexo.
O verso "o silêncio dá encanto à mulher" significa que a virtude feminina consiste em calar e se submeter. A mulher não deve falar em público nem opinar ou decidir, ao contrário do homem, para quem o silêncio não é elogio. O verso expressa a exclusão da mulher da vida pública e do uso da palavra.
Resposta: os dois textos afirmam a inferioridade natural da mulher, com Aristóteles pela hierarquia política e Tomás de Aquino pela imperfeição biológica. Para Aristóteles a desigualdade é permanente porque é natural, e o verso ensina que a mulher deve ser silenciosa e submissa.
b) Pizan diz que filósofos, poetas e moralistas "falam com a mesma voz" porque, apesar de épocas e gêneros diferentes, chegam à mesma conclusão: a mulher é inferior, defeituosa e inclinada ao vício. Os textos mostram isso. Aristóteles (séc. IV a.C.) a vê como inferior e governada, e cita o poeta para recomendar o silêncio. Tomás de Aquino (séc. XIII) a vê como ser falho. Forma-se uma tradição de autoridades que repetem a mesma visão, de modo que ela parece verdade consensual.
O argumento de Pizan contesta essa legitimidade pela experiência. Como mulher, ela examina a própria conduta, sua alma e consciência, e a de muitas outras mulheres que conheceu, de todas as condições sociais, das princesas às de pequena condição. Nada disso confirma o julgamento dos homens ilustres. Ela conclui que não pode admiti-lo. Assim, a quantidade e o prestígio dos que afirmam algo não bastam para torná-lo verdadeiro. Esses autores são homens falando de quem não são, e o testemunho das próprias mulheres, que conhecem a si mesmas, tem peso para refutá-los.
Resposta: a "mesma voz" é a tradição masculina que, de Aristóteles a Tomás de Aquino, afirma a inferioridade e o vício femininos. Pizan a rejeita porque a experiência e a consciência das mulheres, que ela própria conhece, desmentem esse julgamento, e a autoridade dos autores não o torna verdadeiro.
Assuntos: filosofia e gênero, aristóteles, christine de pizan.
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