Questão 8 (3º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2017

3º dia · História

Ao analisar A primeira missa no Brasil, obra de 1860, feita por Victor Meirelles e exposta atualmente no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, o historiador Rafael Cardoso inseriu o quadro no gênero da pintura histórica. Para o autor, tal gênero “deveria partir de um grande e elevado tema e mostrar o domínio do pintor de um amplo leque de informações não pictóricas. Ou seja, em meados do século XIX, tanto a correção da indumentária representada quanto o espírito cívico da obra eram sujeitos a exame detalhado. O quadro teria grandes formatos, composições complexas e perfeito acabamento. A realização de uma pintura assim poderia levar anos e geralmente correspondia a um atestado de amadurecimento do pintor.”

(Adaptado de Rafael Cardoso, A arte brasileira em 25 quadros (1790-1930). Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2008, p. 54-55.)

Pintura "A Primeira Missa no Brasil" (1860), de Victor Meirelles, retratando frades franciscanos celebrando uma missa sob uma grande cruz de madeira, cercados por colonizadores portugueses e diversos grupos de indígenas tupinambás observando a cerimônia em meio à vegetação litorânea.

a) Explique as razões pelas quais podemos considerar que a obra em questão é baseada em uma noção de história oficial e heroica.

b) Qual era a visão predominante dos integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922 em relação à arte acadêmica? Justifique sua resposta.

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Resolução comentada

Resolução comentada

a) O quadro foi pintado em 1860, no Segundo Reinado, quando o Estado de D. Pedro II, por meio do IHGB e da Academia Imperial de Belas Artes, buscava construir uma identidade nacional e uma memória gloriosa para o Brasil. A obra transforma a chegada dos portugueses em 1500 em um momento fundador, solene e harmonioso, o que caracteriza uma história oficial.

O caráter heroico aparece no tema elevado, a primeira missa como ato de fundação da nação cristã e civilizada. Aparece também na composição: a cruz e o altar ocupam o centro, e os portugueses e os religiosos são retratados como agentes da civilização. Os indígenas aparecem como espectadores curiosos e pacíficos, sem resistência nem violência. O conflito, a conquista e a escravização ficam fora da cena. O cuidado com a indumentária, o grande formato e o acabamento perfeito, citados pelo historiador, reforçam o tom monumental e a pretensão de verdade histórica e de exaltação cívica. Resposta: o quadro exalta a colonização como ato fundador, cristão e pacífico, em sintonia com o projeto de identidade nacional do Império, e omite os conflitos e a violência da conquista.

b) Os modernistas de 1922 criticavam a arte acadêmica, vista como conservadora, presa a modelos europeus, ao academicismo e a temas oficiais idealizados, distante da realidade e da cultura brasileiras. Eles defendiam a liberdade de criação, a ruptura com as regras tradicionais e a renovação estética, inspirada nas vanguardas europeias (cubismo, futurismo, expressionismo). Defendiam também a valorização de temas, paisagens, tipos populares e culturas indígena e negra, para criar uma arte nacional e autêntica. Por isso rejeitavam a pintura histórica de tom heroico e idealizado, como a de Meirelles. Resposta: a visão predominante era de crítica e rejeição à arte acadêmica, considerada conservadora, europeizada e idealizada, em nome da liberdade formal e de uma arte brasileira renovada.

Assuntos: pintura histórica e segundo reinado, semana de arte moderna de 1922.

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