Questão 4 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2016
“(...) E, páginas adiante, o padre se portou ainda mais excelentemente, porque era mesmo uma brava criatura. Tanto assim, que, na despedida, insistiu:
- Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.”
(João Guimarães Rosa, A hora e a vez de Augusto Matraga, em Sagarana. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001, p. 380.)
“(...) Então, Augusto Matraga fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu rosto subia um sério contentamento.
Daí, mais, olhou, procurando João Lomba, e disse, agora sussurrando, sumido:
- Põe a bênção na minha filha..., seja lá onde for que ela esteja... E, Dionóra... Fala com a Dionóra que está tudo em ordem!
Depois morreu.”
(Idem, p. 413.)
a) O segundo excerto, de certo modo, confirma os ditos do padre apresentados no primeiro. Contudo, “a hora e a vez” do protagonista não são asseguradas, segundo a narrativa, pela reza e pelo trabalho. O que lhe garantiu ter “a sua hora e a sua vez”?
b) “A hora e a vez” de Nhô Augusto relacionam-se aos encontros que ele tem com outro personagem, Joãozinho Bem-Bem, em dois momentos da narrativa. Em cada um desses momentos, Nhô Augusto precisa realizar uma escolha. Indique quais são essas escolhas que importam para o processo de transformação do personagem protagonista.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) No conto, a reza e o trabalho (a vida de penitência no povoado, ao lado do casal de pretos velhos, depois de Matraga ser surrado e quase morrer) preparam a regeneração do protagonista. Mas a "hora e vez" só chega com um acontecimento externo: a passagem do bando de jagunços de Joãozinho Bem-Bem pelo arraial, quando Matraga tem a chance de agir. Ele decide defender a família de um homem que o bando iria matar (vingança pela morte de um dos seus). Essa ação, uma escolha de proteger o fraco e de arriscar a própria vida, é o que lhe garante a "hora e vez": é a oportunidade de provar a mudança, de morrer em paz e redimido. Assim, a garantia vem do acaso (o encontro com Bem-Bem) somado à decisão de agir em nome da justiça e da caridade, e não da reza e do trabalho por si sós. Resposta: o que lhe garante a "hora e vez" é o encontro com o bando de Joãozinho Bem-Bem e a decisão de defender o homem e a família ameaçados, o que lhe permite o ato de redenção e a morte digna.
b) No primeiro encontro, Nhô Augusto, ainda em seu período de penitência, é convidado por Joãozinho Bem-Bem a se juntar ao bando de jagunços. Ele recusa o convite, abandonando a vida de violência e fiel ao propósito de regeneração (reza, humildade e trabalho). Esse é o primeiro passo importante da transformação: mesmo tentado por uma vida que lhe seria familiar, ele escolhe não voltar a ser o valentão de antes.
No segundo encontro, o bando chega ao arraial para matar o homem que tinha ofendido Bem-Bem. Matraga escolhe enfrentar o jagunço para defender o indefeso, ainda que isso signifique lutar contra alguém que admira e sabe ser mais forte. A luta termina com a morte dos dois. A escolha é a de usar a violência (antes praticada por orgulho e poder) a serviço do bem, o que completa sua redenção.
Resposta: primeiro, recusa o convite de Bem-Bem para entrar no bando (renuncia à vida de jagunço); depois, escolhe defender o homem ameaçado e enfrentar Bem-Bem, usando a coragem a serviço da justiça e da caridade, o que o leva à morte redentora.
Assuntos: guimarães rosa, a hora e a vez de augusto matraga, sagarana.
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