Questão 3 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2016

1º dia · Português

No livro Veneno Remédio - o futebol e o Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 14), o músico, compositor e ensaísta José Miguel Wisnik afirma que o futebol se tornou uma espécie de “língua geral”, válida para todos, que põe “em contato as populações de todos os continentes”. Leia a seguir dois trechos em que o autor explora essa analogia:

“(...) Nada nos impede de dizer que os lances criativos mais surpreendentes não dispensam a prosa corrente do ‘arroz-com-feijão’ do jogo, necessário a toda partida. Ou de constatar, na literatura como no futebol, que a ‘prosa’ pode ser bela, íntegra, articulada e fluente, ou burocrática e anódina, e a ‘poesia’, imprevista, fulgurante e eficaz, ou firula retórica sem nervo e sem alvo.
(...) o futebol é o esporte que comporta múltiplos registros, sintaxes diversas, estilos diferentes e opostos, e gêneros narrativos, a ponto de parecer conter vários jogos dentro de um único jogo. A sua narratividade aberta às diferenças terá relação, muito possivelmente, com o fato de ter se tornado o esporte mais jogado no mundo, como um modelo racional e universalmente acessível que fosse guiado por uma ampla margem de diversidade interna, capaz de absorver e expressar culturas.”

a) O autor vê o futebol como formas de “prosa” e de “poesia”. Embora ambas as formas sejam consideradas necessárias, cada uma tem um lado negativo. Indique-os.

b) Apresente dois argumentos por meio dos quais o autor justifica sua afirmação de que o futebol é uma espécie de “língua geral”.

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a) Wisnik compara o jogo a dois registros da linguagem. A "prosa" é o "arroz-com-feijão" da partida: passes, marcação e posicionamento, o jogo corrente, necessário a toda partida. Quando bem feita, é "bela, íntegra, articulada e fluente". O lado negativo aparece quando ela é "burocrática e anódina", isto é, mecânica, sem brilho, sem inventividade e sem graça.

A "poesia" corresponde aos lances criativos, imprevistos e surpreendentes, que são "fulgurantes e eficazes" quando dão certo. O lado negativo é a "firula retórica sem nervo e sem alvo": o drible ou o floreio exibicionista, que não tem objetividade nem leva ao gol, fica só na aparência e não produz resultado.

Lado negativo da prosa: ser burocrática e anódina (sem brilho nem criatividade). Lado negativo da poesia: ser firula sem nervo e sem alvo (floreio vazio, sem eficácia).

b) O autor sustenta a ideia de "língua geral" em dois argumentos, tirados do segundo trecho.

  1. O futebol é um "modelo racional e universalmente acessível": suas regras são claras e simples e podem ser entendidas e praticadas por qualquer povo, como uma língua comum que permite o contato entre populações de todos os continentes.

  2. Dentro desse modelo comum há "ampla margem de diversidade interna". O futebol comporta múltiplos registros, sintaxes, estilos e gêneros narrativos, e por isso consegue "absorver e expressar culturas" diferentes. Cada povo joga à sua maneira, como cada falante usa a língua à sua maneira. Essa narratividade aberta às diferenças explicaria por que ele se tornou o esporte mais jogado do mundo.

Argumentos: (1) regras racionais e universalmente acessíveis; (2) grande diversidade interna de estilos, capaz de absorver e expressar culturas diversas.

Assuntos: interpretação de texto, analogia entre futebol e linguagem.

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