Questão 11 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2014
O vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada de grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e sente, que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali, reina ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração.
(Almeida Garret, Viagens na minha terra. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012, p.114.)
Entramos a porta da antiga cidadela. – Que espantosa e desgraciosa confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça! Não há ruas, não há caminhos, é um labirinto de ruínas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo é ao pé mesmo da famosa e histórica igreja de Santa Maria de Alcáçova. – Há de custar a achar em tanta confusão.
(Idem, p. 211.)
a) Os excertos transcritos contrastam dois espaços organizadores da narrativa. Caracterize e explique o significado desses espaços para o conjunto do relato ficcional.
b) A chegada à cidade de Santarém mostra-se decepcionante para o narrador viajante. Explique o motivo dessa decepção, tendo em vista a expectativa do narrador no início do romance.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) O primeiro excerto descreve o vale de Santarém, espaço natural e idealizado. É harmonioso, simétrico, "suavíssimo", sem grandiosidade, e se associa à paz, ao sossego e ao amor. A comparação com o Éden o transforma em lugar de inocência e de pureza, de onde as paixões más e a vileza fogem. No romance, esse vale é o espaço da Joaninha e da natureza, que representa o ideal romântico, o refúgio da sensibilidade e a vida autêntica.
O segundo excerto descreve a cidade de Santarém, espaço urbano em ruínas: entulhos, caliça, labirinto "feio e torpe", sem ruas nem caminhos. É o espaço da história, do passado glorioso da cidadela e da igreja, que agora está degradado e desordenado. Representa a decadência de Portugal e o desencanto com a vida pública e com o presente.
O contraste organiza a narrativa entre natureza e cidade, idealização e realidade, pureza afetiva e degradação histórica e política. Ele sustenta a crítica de Garrett ao Portugal contemporâneo.
Resposta: o vale é o espaço natural, edênico e idealizado, ligado ao amor e à inocência; a cidade é o espaço histórico, em ruínas, de caos e decadência. O contraste estrutura a oposição entre ideal e realidade e a crítica ao país.
b) No início do romance, o narrador anuncia uma viagem de Lisboa a Santarém, feita com ar de aventura e com expectativa de encontrar o lugar histórico e simbólico, de passado glorioso, ligado à tradição nacional. Ele esperava a grandeza das glórias antigas, a cidade da história e da memória portuguesa.
Ao chegar, encontra apenas ruínas desordenadas, entulho e confusão, sem traço visível dessa grandeza. A decepção vem do choque entre a imagem idealizada do passado e a realidade do presente, de abandono e destruição. A igreja de Santa Maria de Alcáçova, "famosa e histórica", aparece rodeada de caos, o que reforça a ideia de que a tradição foi esquecida ou arruinada.
Resposta: ele esperava encontrar uma Santarém ligada à glória histórica de Portugal, mas encontra uma cidade em ruínas e desorganizada, o que frustra a expectativa e revela a decadência do presente.
Assuntos: viagens na minha terra, romantismo português, espaço narrativo.
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