Questão 10 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2014
(...) Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.
(Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001, p.101.)
Então apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura... (...) Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi (...). Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.
- Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um ano.
Virgília replicou: - Promete que algum dia me fará baronesa?
- Marquesa, porque serei marquês.
Desde então fiquei perdido.
(Idem, p.138.)
(...) Virgília deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados.
(Idem, p. 76)
a) No romance, Brás Cubas estabelece vínculos amorosos, em diferentes momentos, com Marcela e com Virgília. Explique a natureza desses dois vínculos, considerando a classe social das personagens envolvidas.
b) Considerando o último excerto, como o narrador Brás Cubas avalia sua vivência amorosa ao final do romance?
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) Os dois vínculos são marcados pelo interesse material e pela ascensão social, não pelo sentimento puro.
Marcela é uma cortesã, ligada ao luxo e ao dinheiro. O amor dela tem preço, e Brás o mede em "quinze meses e onze contos de réis". Ela o ama enquanto ele banca seus gastos (joias, presentes), para o que ele chega a se endividar com agiotas. A relação é uma troca comercial, que se acaba quando o dinheiro acaba.
Virgília pertence à elite e é filha de família influente. O vínculo com ela se dá no plano do adultério e da ambição política. Ela opta por Lobo Neves, que tem prestígio e futuro político (promessa de ministério e de título de marquês), e não por Brás, que fica sem a noiva e sem a candidatura. Depois, ela se torna amante de Brás, mas o casamento continua. Assim, Machado critica a sociedade burguesa e aristocrática, em que as relações amorosas são regidas por dinheiro, status e conveniência.
Resposta: com Marcela, uma relação de interesse financeiro (cortesã e rapaz rico); com Virgília, uma relação pautada por ambição social e política, que a leva a preferir Lobo Neves e a manter com Brás um adultério.
b) No trecho, o reencontro com Virgília, vinte anos depois, mostra que a paixão intensa ("duas paixões sem freio") acabou. Resta o vazio: "dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela".
Brás avalia sua vivência amorosa com desilusão e ceticismo. O amor não deixou nada duradouro, e o tempo e o desgaste da vida o consumiram. O termo "saciados" sugere cansaço e esgotamento, e não plenitude. A hesitação irônica do narrador ("não sei se em igual dose") mostra o seu distanciamento e a visão pessimista, típica do romance, de que as relações humanas são transitórias e vazias.
Resposta: Brás vê sua experiência amorosa como desencantada e frustrante: a grande paixão acabou em esgotamento e indiferença, restando apenas corações "murchos" e saciados.
Assuntos: Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, realismo.
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