PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 52 da UFPR 2026
Leia o seguinte trecho, retirado do livro de ficção “O Presidente Negro”, escrito e publicado por Monteiro Lobato em 1926:
“Caráter racial é uma cristalização que às lentas se vai operando através dos séculos. O cruzamento perturba essa cristalização, liquefá-la, torna-a instável. A nossa solução deu mau resultado [...]. Não há mal nem bem no jogo das forças cósmicas. O ódio desabrocha tantas maravilhas quanto o amor. O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica [...]”.
Lobato, M. O Presidente Negro. São Paulo: Brasiliense, 1979, p. 70-71. Adaptado.
Monteiro Lobato (1882–1948) é comumente tido como um autor central para a formação cultural brasileira do período republicano. De fato, nas primeiras décadas da República, havia uma preocupação em formar uma nova identidade brasileira, marcada por novos símbolos e novos traços, e nesse contexto havia também a preocupação com a composição racial do Brasil – assunto sobre o qual Monteiro Lobato era interessado. Com base nos conhecimentos sobre a História da República Velha, assinale a alternativa que aponta a proposta de cunho racista expressa no trecho e que por vezes circulava no Brasil nas primeiras décadas do século XX.
- AA busca pela melhoria biológica por meio de vacinação, conhecida como Higienismo.
- BA proposta de controle sobre qualidades de pureza genética, chamada de Eugenia.
- CA medida de classificação racial e fenotípica obrigatória, chamada de Frenologia.
- DA criação de espaços urbanos de segregação compulsória, referida como Favelização.
- EA proibição de casamentos interraciais, conhecida como Política de Embranquecimento.
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Resolução comentada
O trecho diz que o "caráter racial" é uma "cristalização" feita ao longo dos séculos e que o cruzamento (a mestiçagem) a perturba. Para o autor, o "amor" (a mistura entre raças) "matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica". Ou seja, ele defende a ideia de que existe uma pureza racial a ser preservada e que a mistura degrada a população.
Essa ideia tem nome: eugenia, termo criado por Francis Galton no século XIX. A eugenia propunha "melhorar" a espécie humana controlando a reprodução e valorizando supostas qualidades hereditárias e de pureza genética. No Brasil da República Velha, ela teve adeptos entre médicos e intelectuais, e Lobato chegou a participar desse debate.
Confira as demais:
- Higienismo foi um movimento de saneamento e saúde pública (vacinação, reformas urbanas), sem base na pureza racial.
- Frenologia estudava o formato do crânio para supostamente deduzir traços de caráter. Nunca foi classificação obrigatória.
- Favelização é processo social de ocupação urbana, não política de segregação criada com esse nome.
- A política de embranquecimento estimulava a imigração europeia para clarear a população, e não proibia casamentos interraciais. Pelo contrário, apostava na mistura.
O trecho, portanto, expressa a proposta eugênica.
Alternativa B.
Pegadinha: A alternativa E engana porque o embranquecimento também é racista e da mesma época, mas ele não proibia casamentos interraciais e não corresponde à ideia de pureza do trecho.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AHigienismo era saneamento e saúde pública, não melhoria biológica racial, e não se resume a vacinação.
- CFrenologia era a pseudociência que relacionava o formato do crânio ao caráter, nunca uma classificação racial obrigatória.
- DFavelização é um processo urbano e social, não uma política de segregação compulsória com esse nome.
- EO embranquecimento incentivava a imigração europeia e a mistura, não proibia casamentos interraciais.
Assunto: Pós-abolição, racismo e cultura afro-brasileira.
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Fonte: UFPR 2026 · 1ª fase. Prova oficial ↗