PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 64 da UFPR 2023
Pintar um rosto como “objeto” não é despojá-lo do que “traz pensado”. “Acho que o pintor o interpreta”, diz Cézanne, “o pintor não é imbecil”. Mas esta interpretação não deve ser pensada separadamente da visão. “[Ao] pintar todos os pequenos azuis e todos os pequenos marrons, [ele faz] olhar como ele olha ... Ao diabo se duvidarem como, casando um verde matizado com um vermelho, entristece-se uma boca ou faz-se sorrir uma face”.
(MERLEAU-PONTY, Maurice. A dúvida de Cézanne. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 118. Coleção Os Pensadores.)
De acordo com essa passagem e com o ensaio de que foi retirada, é correto afirmar que cabe ao pintor:
- Areproduzir os objetos tais como realmente são.
- Brefletir na pintura seu estado psicológico.
- Cusar arbitrariamente as cores com as quais compõe os objetos.
- Drepresentar os objetos segundo regras estabelecidas de composição.
- Ereproduzir os objetos tal como os vê.
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Resolução comentada
O ponto central do texto de Merleau-Ponty sobre Cézanne é que a pintura não copia um mundo pronto nem expressa um estado interior: ela revela a percepção do pintor, a maneira como o mundo aparece a quem o vê.
Veja as pistas da passagem:
- "Pintar um rosto como objeto não é despojá-lo do que traz pensado": o rosto pintado carrega sentido, e não é uma coisa neutra.
- "O pintor o interpreta", mas essa interpretação "não deve ser pensada separadamente da visão": o sentido nasce do próprio ato de ver, sem ser acrescentado depois por uma ideia.
- Ao pintar "todos os pequenos azuis e todos os pequenos marrons", o pintor "faz olhar como ele olha": a tela transmite o olhar dele.
- Casar um verde matizado com um vermelho pode entristecer uma boca ou fazer sorrir uma face: o efeito vem das relações de cor que o pintor vê, e não de regras ou de um capricho.
Portanto, cabe ao pintor reproduzir os objetos tal como os vê, isto é, tal como a visão os apresenta, já carregados de sentido.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- Afala em objetos "tais como realmente são", como se houvesse cópia neutra; o texto defende a visão do pintor, e não uma realidade em si.
- Bo texto trata do modo de ver o objeto, e não de projetar o estado psicológico do pintor na tela.
- Cas cores seguem o que o pintor vê (azuis, marrons, verde com vermelho), e não um uso arbitrário.
- DCézanne rompe com regras fixas de composição; o que guia é a percepção, não normas estabelecidas.
Assuntos: fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty, filosofia da arte.
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Fonte: UFPR 2023 · 1ª fase. Prova oficial ↗