PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 5 da UFPR 2011
Os textos a seguir são referência para as questões 04 a 06. · 1ª fase
Texto 1:
Apenas poucos séculos atrás, a mera ideia de resistir à agricultura, ao invés de estimulá-la, pareceria ininteligível. Como teria progredido a civilização sem a limpeza das florestas, o cultivo do solo e a conversão da paisagem agreste em terra colonizada pelo homem? Os reis e grandes proprietários podiam reservar florestas e parques para caça e extração de madeira, mas na Inglaterra Tudor a preservação artificial dos cumes incultos teria parecido tão absurda como a criação de santuários para pássaros e animais que não podiam ser comidos ou caçados. A tarefa do homem, nas palavras do Gênesis (I, 28), era “encher a terra e submetê-la”, derrubar matas, lavrar o solo, eliminar predadores, matar insetos nocivos, arrancar fetos, drenar pântanos. A agricultura estava para a terra assim como o cozimento para a carne crua. Convertia a natureza em cultura. Terra não cultivada significava homens incultos. E quando os ingleses seiscentistas mudaram-se para Massachusetts, parte de sua argumentação em defesa da ocupação dos territórios indígenas foi que aqueles que por si mesmos não submetiam e cultivavam a terra não tinham direito de impedir que outros o fizessem.
Fetos: plantas da espécie que inclui samambaias e avencas.
(THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural. S. Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 17-18.)
Texto 2:
Antes dos anos 80, o termo biodiversidade não era conhecido. Esse termo, que une as palavras ‘diversidade’ e ‘biológica’, foi popularizado pelo livro Biodiversidade, de 1988, organizado pelo biólogo norte-americano Edward O. Wilson, um dos pioneiros da ecologia, a partir dos debates do Fórum Nacional de Biodiversidade, realizado dois anos antes em Washington (Estados Unidos). O livro foi publicado no Brasil em 1997. No conceito de biodiversidade estão incluídos todos os seres vivos e as relações que esses organismos têm entre si e com o meio físico, transformando e construindo florestas, lagos e todos os elementos da paisagem que normalmente chamamos de natureza. Assim, plantas, animais e ecossistemas passaram a ser entendidos como um complexo integrado, que dá forma e funcionamento à vida no planeta.
A biodiversidade, portanto, não se refere exclusivamente aos organismos em si, mas também ao ambiente criado a partir da presença deles. É como um jogo de xadrez. De que valem as peças se não forem realizadas boas jogadas? Precisamos compreender as complexas regras desse jogo, para evitar ou minimizar nossas interferências nefastas. No caso da Amazônia, precisamos apreender a biodiversidade da região em toda a sua complexidade e dinâmica, entender os efeitos dos processos de mudança e buscar as melhores soluções para a manutenção dessa diversidade.
(A Amazônia está mudando. Ciência Hoje, jul. 2007, p. 40.)
No Texto 1, o autor:
- Aexplicita como a relação homem/natureza era percebida no século XVI.
- Bcritica a atitude dos ingleses que colonizaram a América do Norte.
- Clamenta a profunda mudança na agricultura ocorrida ao longo de quatro séculos.
- Daponta a primazia do conceito de natureza sobre o de cultura no século XVI.
- Emostra-se saudosista quanto à concepção da relação com a natureza antropocêntrica e fundamentada na Bíblia.
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Resolução comentada
O Texto 1 é de um historiador (Keith Thomas) que descreve, de modo expositivo, como se pensava a natureza na Inglaterra dos séculos XVI e XVII. Ele não toma partido: apenas reconstrói uma mentalidade.
Os indícios estão no texto:
- "Apenas poucos séculos atrás, a mera ideia de resistir à agricultura [...] pareceria ininteligível": o autor contrasta o passado com o presente (em que a preservação ambiental faz sentido) e mostra como a visão era outra.
- A natureza era vista como algo a ser dominado: "encher a terra e submetê-la", derrubar matas, drenar pântanos. Cultivar era converter "natureza em cultura", e terra não cultivada indicava "homens incultos".
- Os ingleses de Massachusetts usaram essa lógica para justificar a ocupação das terras indígenas. O autor relata o argumento, sem criticá-lo nem defendê-lo.
Assim, a alternativa que descreve corretamente a função do texto é a que diz que ele explicita a percepção da relação homem/natureza no século XVI (Tudor, "ingleses seiscentistas").
As demais atribuem ao autor uma atitude (crítica, lamento, saudosismo) que o texto não manifesta, ou invertem a relação entre natureza e cultura.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BO autor apenas relata o argumento dos colonos ingleses; não emite crítica a eles.
- CO texto trata da visão sobre a natureza, não de mudanças técnicas na agricultura, e não há lamento.
- DInverte a ideia do texto: a cultura (agricultura) é que se sobrepunha à natureza, vista como algo a ser convertido.
- EO tom é descritivo, não saudosista; o autor não defende a concepção antropocêntrica bíblica.
Assunto: Tema, ideia central e informações explícitas.
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Fonte: UFPR 2011 · 1ª fase. Prova oficial ↗