PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 68 da UFPR 2008

1ª fase · História: Revolução Francesa e Era Napoleônica

“O Jacobinismo transpôs a linha diante da qual hesitavam os constituintes. [...] Colocou-se no lugar de uma liberdade negativa que não atribui ao homem qualquer objetivo, uma liberdade dependente da ação virtuosa. Colocou-se no lugar da livre associação dos indivíduos independentes, anteriormente a qualquer sociedade, uma cadeia social que em toda parte e sempre manifestava sua preeminência sobre as individualidades. Em lugar da liberdade dos modernos, colocou-se a liberdade militante e mobilizada dos antigos. Nesse ponto naufragou o individualismo dos direitos do homem. É preciso reconhecer a coerência dos Jacobinos. Embora tenham continuado a evocar a liberdade em fórmulas paradoxais e exaltadas (o ‘despotismo da liberdade’) não camuflaram o reino do extraordinário. Opuseram a liberdade da Constituição à liberdade da Revolução: ‘A Constituição, disse Saint-Just, é o reino da liberdade vitoriosa e pacífica. A Revolução consiste na guerra da liberdade contra os seus inimigos’.”

(OZOUF, Mona. Liberdade. In: OZOUF, M. & FURET, François. Dicionário crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, p. 784–785.)

Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema, é correto afirmar que estiveram em jogo no episódio da Revolução Francesa dois conceitos de liberdade:

  1. A
    aquele que se fundava no direito natural e se opunha à ordem aristocrática do Antigo Regime e aquele que se fundava na idéia de um contrato social que, por meio da vontade geral, regularia o estado civil.
  2. B
    o dos antigos, que definia liberdade como ausência de coerção, e o dos modernos, que a definia como vontade positiva; o segundo postulava uma representação objetiva da felicidade humana, e o primeiro não contemplava qualquer representação de tal felicidade.
  3. C
    um deles de concepção aristotélica, que subordinava os objetivos morais à liberdade, e o outro que submetia a vida humana à finalidade virtuosa e justificava, por antecipação, as restrições impostas à liberdade.
  4. D
    as liberdades no plural – franquias e privilégios – dos modernos em oposição à liberdade absoluta, isto é, a garantia da liberdade individual vigente no Antigo Regime em oposição ao aniquilamento dessas liberdades em favor do bem-estar coletivo preconizado pelos revolucionários.
  5. E
    a ‘liberdade francesa’, que se define pela supressão da necessidade de igualdade, e a ‘liberdade inglesa’, fundada na idéia de que os indivíduos apresentam uma mesma solução se confrontados com os termos de um mesmo problema político.
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Resolução comentada

O texto contrapõe duas ideias de liberdade dentro da Revolução. De um lado, a liberdade negativa dos constituintes de 1789 (a "liberdade dos modernos"): os indivíduos são independentes, associam-se livremente e a liberdade não impõe nenhum objetivo ao homem. De outro, a liberdade jacobina, que Ozouf chama de "liberdade dos antigos": é militante e mobilizada, depende da ação virtuosa e subordina o indivíduo à cadeia social.

Assim, a questão pede o par que reflete essa oposição.

  1. A liberdade dos constituintes vem do direito natural e dos direitos do homem, contra a ordem aristocrática. Isso confere com "individualismo dos direitos do homem".
  2. A liberdade jacobina vem da vontade geral rousseauniana, que regula o estado civil e se impõe aos indivíduos. Isso confere com "cadeia social" e preeminência sobre as individualidades.

A alternativa A reúne esses dois polos: direito natural contra o Antigo Regime e contrato social com vontade geral.

As demais erram por inverter os termos. Em B, os antigos aparecem como ausência de coerção, quando o texto os associa à liberdade mobilizada. Em C, a liberdade é subordinada ao fim moral na ordem errada, e a referência a Aristóteles não aparece no texto. D confunde as franquias do Antigo Regime com a liberdade moderna. E trata de França contra Inglaterra, assunto que o texto não aborda.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BInverte os conceitos: a ausência de coerção é a liberdade dos modernos, e a vontade positiva e mobilizada é a dos antigos, retomada pelos jacobinos.
  • CAtribui a Aristóteles, sem base no texto, uma liberdade que subordina a moral, e não descreve a liberdade negativa dos constituintes.
  • DChama de liberdade dos modernos as franquias e privilégios do Antigo Regime, que a Revolução combateu; a liberdade moderna é a dos direitos individuais.
  • EOpõe liberdade francesa e inglesa, contraste que o texto não faz; a oposição é entre constituintes e jacobinos.

Assunto: Revolução Francesa e Era Napoleônica.

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Fonte: UFPR 2008 · 1ª fase. Prova oficial ↗