PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 49 da UFPR 2005
O texto abaixo é referência para as questões 49 a 51. · 1ª fase
A língua do Brasil amanhã
Ouvimos com freqüência opiniões alarmantes a respeito do futuro da nossa língua. Às vezes se diz que ela vai simplesmente desaparecer, em benefício de outras línguas supostamente expansionistas (em especial o inglês, atual candidato número um a língua universal); ou que vai se “misturar” com o espanhol, formando o “portunhol”; ou, simplesmente, que vai se corromper pelo uso da gíria e das formas populares de expressão (do tipo: o casaco que cê ia sair com ele tá rasgado). Aqui pretendo trazer uma opinião mais otimista: a nossa língua, estou convencido, não está em perigo de desaparecimento, muito menos de mistura. (...)
O que é que poderia ameaçar a integridade, ou a existência, da nossa língua? O primeiro fator, freqüentemente citado, é a influência do inglês – o mundo de empréstimos que andamos fazendo para nos expressarmos sobre certos assuntos.
Não se pode negar que o fenômeno existe; o que mais se faz hoje é surfar, deletar ou tratar do marketing. Mas isso não significa o desaparecimento da língua portuguesa; empréstimos são um fato da vida, e sempre existiram. Hoje pouca gente sabe disso, mas avalanche, alfaiate, tenor e pingue-pongue são palavras de origem estrangeira; hoje já se naturalizaram, e certamente ninguém vê ameaça nelas. Afinal de contas, quando se começou a jogar aquela bolinha em cima da mesa, precisou-se de um nome; podíamos dizer tênis de mesa, e alguns tentaram, mas a palavra estrangeira venceu – só que virou portuguesa, hoje vive entre nós como uma imigrante já casada, com filhos brasileiros etc. Perdeu até o sotaque.
Quero dizer que não há o menor sintoma de que os empréstimos estrangeiros estejam causando lesões na língua portuguesa; a maioria, aliás, desaparece em pouco tempo, e os que ficam se assimilam. O português, como toda língua, precisa crescer para dar conta das novidades sociais, tecnológicas, artísticas e culturais; para isso pode aceitar empréstimos – ravióli, ioga, chucrute, balé – e também pode (e com maior freqüência) criar palavras a partir de seus próprios recursos – como computador, ecologia, poluição – ou então estender o uso de palavras antigas a novos significados – executivo ou celular, que significam coisas hoje que não significavam há vinte anos. Isso está acontecendo a todo tempo com todas as línguas, e nunca levou nenhuma delas à extinção. Eu, pessoalmente, desconfio que os falantes possuem um bom senso inato que os impede de utilizar termos estrangeiros além de um certo limite; por isso, a maioria das palavras de empréstimo são muito efêmeras: quem se lembra hoje do que é um ban-lon, um goal-keeper ou mesmo (essa eu lamento, não pela palavra, mas pela coisa) um fox-trot? (...)
Como primeira conclusão deste ensaio, direi que não estamos em perigo de ver nossa língua submergida pela maré de empréstimos ingleses. A língua está aí, inteira: a estrutura gramatical não mudou, a pronúncia é ainda inteiramente nossa, e o vocabulário é mais de 99% de fabricação nacional. Por enquanto, falamos português.
(PERINI, Mário A. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. p. 11-14.)
Assinale a idéia central, ou tese, defendida por Perini nesse texto.
- AO português corre o risco de desaparecer devido à expansão do inglês como língua universal.
- BA moda do uso de estrangeirismos no Brasil hoje ultrapassa os limites do bom senso.
- CNem os usos diversos do português nem o contato com outras línguas ameaçam a integridade do idioma.
- DNo futuro, o português tende a se misturar com o espanhol e a formar uma nova língua, o “portunhol”.
- EO uso de gírias e a forma de falar de pessoas pouco escolarizadas podem provocar a deterioração da língua portuguesa.
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Resolução comentada
A pergunta pede a tese, isto é, a ideia que o autor defende e que organiza o texto todo. Para achá-la, veja o que ele diz que "pretende trazer" e como conclui.
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No primeiro parágrafo, ele lista três temores comuns: o inglês faria o português desaparecer, o espanhol o "misturaria" (portunhol) e a gíria e as formas populares o corromperiam.
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Em seguida, afirma que tem uma opinião mais otimista: a língua "não está em perigo de desaparecimento, muito menos de mistura".
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Depois, desenvolve o argumento sobre os empréstimos do inglês: sempre existiram, a maioria some ou se assimila, e a gramática, a pronúncia e o vocabulário continuam portugueses.
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A conclusão confirma isso: "não estamos em perigo de ver nossa língua submergida".
Portanto, a tese é que a língua não está ameaçada, nem pelas variações de uso (gíria, formas populares) nem pelo contato com outras línguas (inglês, espanhol). É exatamente o que diz a alternativa C.
As demais alternativas retomam justamente os medos que o autor apresenta para refutar, ou atribuem a ele uma opinião que ele não tem.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AApresenta como tese o temor que o autor rejeita: ele diz que o português não corre risco de desaparecer.
- BO autor afirma que os falantes têm bom senso inato que limita os estrangeirismos, não que eles o ultrapassem.
- DO "portunhol" é citado como opinião alarmista, que o autor nega ('muito menos de mistura').
- EA deterioração pela gíria também é um dos medos citados e refutados, não a tese do texto.
Assunto: Tese, ponto de vista e estrutura argumentativa.
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Fonte: UFPR 2005 · 1ª fase. Prova oficial ↗