PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 59 da UERJ 2021
E, bem pensado, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua vida norteado por uma ilusão, por uma ideia a menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa ideia nascera da amplificação da crendice dos povos greco-romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? (...) Reviu a história; viu as mutilações, os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si para si: como um homem que vivesse quatro séculos, sendo francês, inglês, italiano, alemão, podia sentir a Pátria?
Uma hora, para o francês, o Franco-Condado era terra dos seus avós, outra não era; num dado momento, a Alsácia não era, depois era e afinal não vinha a ser. Nós mesmos [brasileiros] não tivemos a Cisplatina e não a perdemos?
(...) Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista.
LIMA BARRETO
Triste Fim de Policarpo Quaresma, parte III, capítulo V.
No romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto abordou contradições da sociedade brasileira do início do período republicano.
Nesse contexto, na reflexão que faz no trecho citado, o personagem Major Quaresma ressalta um entendimento em que a noção de pátria pode ser definida atualmente como:
- Aherança cultural
- Bcomunidade imaginada
- Ccontingência geográfica
- Ddeterminação econômica
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Resolução comentada
No trecho, Quaresma, que sempre foi um nacionalista fervoroso, começa a duvidar da ideia de pátria. Ele a chama de "ilusão", de "ideia sem base", de "noção sem consistência racional".
Para sustentar isso, ele dá dois argumentos:
- A origem da ideia: ela teria nascido de uma crença antiga, a dos povos greco-romanos no culto aos ancestrais mortos. Ou seja, é uma construção cultural e simbólica, e não algo natural.
- A instabilidade das fronteiras: o Franco-Condado e a Alsácia ora eram França, ora não eram, e o Brasil ganhou e perdeu a Cisplatina. Um homem que vivesse quatro séculos mudaria de nacionalidade várias vezes. Portanto, a pátria não é um dado fixo do território.
A conclusão é que a pátria não é uma realidade objetiva. Ela existe porque as pessoas acreditam nela e a sentem como sua, e isso muda conforme a história. É o conceito de "comunidade imaginada", de Benedict Anderson: a nação é uma construção simbólica, compartilhada por pessoas que nunca se conhecem.
As demais opções tratam a pátria como algo concreto, seja a herança de tradições, o território ou a economia. O texto, porém, mostra justamente que o território muda e que a ideia é uma crença.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AQuaresma não valoriza uma herança cultural; ele desmonta a pátria como ilusão, e a menção aos ancestrais serve para mostrar a origem da crença.
- COs exemplos do Franco-Condado, da Alsácia e da Cisplatina mostram que as fronteiras mudam, o que contradiz a pátria como dado geográfico fixo.
- DO trecho não relaciona a pátria a interesses ou condições econômicas.
Assuntos: Lima Barreto, nacionalismo, comunidade imaginada.
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Fonte: UERJ 2021 · Exame Único. Prova oficial ↗