PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 12 (1º exame) da UERJ 2015
Texto-base das questões 09 a 12 · 1º Exame de Qualificação
MEDO E VERGONHA
O medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo, nos põe em xeque, paralisa alguns e atiça a criatividade de outros. Uma pessoa em estado de pavor é dona de uma energia extra capaz de feitos incríveis.
Um amigo nosso, quando era adolescente, aproveitou a viagem dos pais da namorada para ficar na casa dela. Os pais voltaram mais cedo e, pego em flagrante, nosso Romeu teve a brilhante ideia de pular, pelado, do segundo andar. Está vivo. Tem hoje essa incrível história pra contar, mas deve se lembrar muito bem da vergonha.
Me lembrei dessa história por conta de outra completamente diferente, mas na qual também vi meu medo me deixar em maus lençóis.
Estava caminhando pelo bairro quando resolvi explorar umas ruas mais desertas. De repente, vejo um menino encostado num muro. Parecia um menino de rua, tinha seus 15, 16 anos e, quando me viu, fixou o olhar e apertou o passo na minha direção. Não pestanejei. Saí correndo. Correndo mesmo, na mais alta performance de minhas pernas.
No meio da corrida, comecei a pensar se ele iria mesmo me assaltar. Uma onda de vergonha foi me invadindo. O rapaz estava me vendo correr. E se eu tivesse me enganado? E se ele não fosse fazer nada? Mesmo que fosse. Ter sido flagrada no meu medo e preconceito daquela forma já me deixava numa desvantagem fulminante.
Não sou uma pessoa medrosa por excelência, mas, naquele dia, o olhar, o gesto, alguma coisa no rapaz acionou imediatamente o motor de minhas pernas e, quando me dei conta, já estava em disparada.
Fui chegando ofegante a uma esquina, os motoristas de um ponto de táxi me perguntaram o que tinha acontecido e eu, um tanto constrangida, disse que tinha ficado com medo. Me contaram que ele vivia por ali, tomando conta dos carros. Fervi de vergonha.
O menino passou do outro lado da rua e, percebendo que eu olhava, imitou minha corridinha, fazendo um gesto de desprezo. Tive vontade de sentar na guia1 e chorar. Ele só tinha me olhado, e o resto tinha sido produto legítimo do meu preconceito.
Fui atrás dele. Não consegui carregar tamanha bigorna2 pra casa. “Ei!” Ele demorou a virar. Se eu pensava que ele assaltava, ele também não podia imaginar que eu pedisse desculpas. Insisti: “Desculpa!” Ele virou. Seu olhar agora não era mais de ladrão, e sim de professor. Me perdoou com um sinal de positivo ainda cheio de desprezo. Fui pra casa pelada, igual ao Romeu suicida.
Denise Fraga
folha.uol.com.br, 08/01/2013
1 guia – meio-fio da calçada
2 bigorna – bloco de ferro para confecção de instrumentos
Na última frase da crônica, a autora correlaciona dois episódios. Em ambos, aparece o atributo “pelado(a)”. No entanto, esse atributo tem significado diferente em cada um dos episódios.
No texto, o significado de cada termo se caracteriza por ser, respectivamente:
- Aliteral e figurado
- Bgeral e particular
- Cdescritivo e irônico
- Dambíguo e polissêmico
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Resolução comentada
Na última frase, a autora compara dois episódios: "Fui pra casa pelada, igual ao Romeu suicida". O termo "pelado" aparece duas vezes, uma em cada episódio.
No episódio do amigo, o texto diz que ele teve a ideia de "pular, pelado, do segundo andar". Aqui o sentido é literal: o rapaz estava sem roupa de fato.
No episódio da autora, ela não ficou sem roupa. Ela voltou para casa "pelada" no sentido de exposta, desnudada em seu preconceito e em sua vergonha, depois de ser flagrada no medo e de ouvir o menino. Isso é uma metáfora, ou seja, sentido figurado.
A ordem pedida é "respectivamente": primeiro o episódio de Romeu (literal), depois o da autora (figurado).
As demais opções não descrevem essa oposição. "Geral e particular" trata de abrangência, não de sentido. "Descritivo e irônico" não cabe, pois a autora não faz ironia, e sim metáfora. "Ambíguo e polissêmico" não distingue os dois usos, e a ambiguidade não é o recurso empregado.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BGeral e particular tratam de abrangência do termo, não da oposição entre sentido real e metafórico.
- CO primeiro uso é de fato descritivo, mas o segundo é metafórico e não irônico; a autora não diz o contrário do que pensa.
- DAmbíguo e polissêmico não distinguem os dois usos; o contexto deixa claro o sentido de cada um.
Assunto: Denotação, conotação e expressões idiomáticas.
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Fonte: UERJ 2015 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗