PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 19 do ITA 2019

1ª fase · Português · Português: Intertextualidade e comparação entre textos

Texto-base das questões 17 a 19 · 1ª fase

As questões de 17 a 19 referem-se ao texto a seguir:

Texto 2

1 Em frente da minha casa existe um muro enorme, todo branco. No Facebook, uma postagem me chama atenção: é um muro virtual e a brincadeira é pichá-lo com qualquer frase que vier à cabeça. Não quero pichar o mundo virtual, quero um muro de verdade, igual a este de frente para a minha casa. Pelas ruas e avenidas, vou trombando nos muros espalhados pelos quarteirões, repletos de frases tolas, xingamentos e erros de português. Eu bem poderia modificar isso.

2 “O caminho se faz caminhando”, essa frase genial, tão forte e certeira do poeta espanhol Antonio Machado, merece aparecer em diversos muros. Basta pensar um pouco e imaginar; de fato, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.

3 De repente, vejo um prédio inteiro marcado por riscos sem sentido e me calo. Fui tentar entender e não me faltaram explicações: é grafite, é tribal, coisas de difícil compreensão. As explicações prosseguem: grafite é arte, pichar é vandalismo. O pequeno vândalo escondido dentro de mim busca frases na memória e, então, sinto até o cheiro da lama de Woodstock em letras garrafais: “Não importam os motivos da guerra, a paz é muito mais importante”.

4 Feito uma folha deslizando pelas águas correntes do rio me surge a imagem de John Lennon; junto dela, outra frase: “O sonho não acabou”, um tanto modificada pela minha mão, tornando-se: o sonho nunca acaba. E minha cabeça já se transforma num muro todo branco.

5 Desde os primórdios dos tempos, usamos a escrita como forma de expressão, os homens das cavernas deixaram pichados nas rochas diversos sinais. Num ato impulsivo, comprei uma tinta spray, atravessei a rua chacoalhando a lata e assim prossegui até chegar à minha sala, abraçado pela ansiedade aumentada a cada passo. Coloquei o dedo no gatilho do spray e fiquei respirando fundo, juntando coragem e na mente desenhando a primeira frase para pichar, um tipo de lema, aquela do Lô Borges: “Os sonhos não envelhecem” – percebo, num sorrir de canto de boca, o quanto os sonhos marcam a minha existência.

6 Depois arriscaria uma frase que criei e gosto: “A lagarta nunca pensou em voar, mas daí, no espanto da metamorfose, lhe nasceram asas...”. Ou outra, completamente tola, me ocorreu depois de assistir a um documentário, convencido de que o panda é um bicho cativante, mas vive distante daqui e sua agonia não é menor das dos nossos bichos. Assim pensando, as letras duma nova pichação se formaram num estalo: “Esqueçam os pandas, salvem as jaguatiricas!”.

7 No muro do cemitério, escreveria outra frase que gosto: “Em longo prazo estaremos todos mortos”, do John Keynes, que trago comigo desde os tempos da faculdade. Frases de túmulos ganhariam os muros; no de Salvador Allende está consagrado, de autoria desconhecida: “Alguns anos de sombras não nos tornarão cegos.” Sempre apegado aos sonhos, picharia também uma do Charles Chaplin: “Nunca abandone os seus sonhos, porque se um dia eles se forem, você continuará vivendo, mas terá deixado de existir”.

8 Claro, eu poderia escrever essas frases num livro, num caderno ou no papel amassado que embrulha o pão da manhã, mas o muro me cativa, porque está ao alcance das vistas de todos e quero gritar para o mundo as frases que gosto; são tantas, até temo que me faltem os muros. Poderia passar o dia todo pichando frases, as linhas vão se acabando e ainda tenho tanto a pichar... “É preciso muito tempo para se tornar jovem”, de Picasso, “Há um certo prazer na loucura que só um louco conhece”, de Neruda, “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarzinho”, cravada por Mário Quintana...

9 Encerro com Nietzsche: “Isto é um sonho, bem sei, mas quero continuar a sonhar”, que serve para exemplificar o que sinto neste momento, aqui na minha sala, escrevendo no computador o que gostaria de jogar nos muros lá fora, a custo me mantendo calmo, um olho na tela, outro voltado para o lado oposto da rua. Lá tem aquele muro enorme, branco e virgem, clamando por frases. Não sei quanto tempo resistirei até puxar o gatilho do spray.

Adaptado de: ALVEZ, A. L. Um muro para pichar. Correio do Estado, fev 2018. Disponível em https://www.correiodoestado.com.br/opiniao/leia-a-cronica-de-andre-luiz-alvez-um-muro-para-pichar/321052/ Acesso em: ago. 2018.

A partir da leitura dos textos 1 e 2, depreende-se que

I. os autores reiteram que grafite e pichação não são práticas artísticas bem aceitas por toda a sociedade.
II. o texto 1 menciona a ausência de poesia na pichação; o texto 2 explora a possibilidade de essa prática disseminar cultura.
III. o texto 1 contrasta grafite e pichação; já o texto 2 expressa motivações subjetivas do autor para pichar.

Está/ão correta/s:

  1. A
    apenas I e II.
  2. B
    apenas I e III.
  3. C
    apenas II.
  4. D
    apenas II e III.
  5. E
    todas.
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Resolução comentada

A distinção importante é entre apresentar um julgamento social e defendê-lo como opinião do autor. No terceiro parágrafo, o narrador reproduz explicações que ouviu: “grafite é arte, pichar é vandalismo”. Isso não significa que ele considere as duas práticas artísticas ou que rejeite ambas. Assim, a afirmação I não encontra sustentação no texto 2.

A afirmação II é compatível com o texto 2: o narrador deseja escrever nos muros frases de poetas, músicos e pensadores. Ao explicar que o muro “está ao alcance das vistas de todos”, mostra a possibilidade de divulgar essas referências culturais por meio da pichação.

A afirmação III também descreve corretamente o texto 2. O desejo de pichar nasce de motivações pessoais: o apego aos sonhos, a admiração pelas frases e a vontade de compartilhá-las.

Há uma limitação: o texto 1 não foi fornecido, portanto não é possível conferir as partes de II e III referentes a ele. Considerando que essas descrições do texto 1 sejam fiéis, a resposta é Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AInclui I, que não se sustenta no texto 2, e exclui III, que descreve suas motivações subjetivas.
  • BInclui indevidamente I e exclui a possibilidade de disseminação cultural indicada em II.
  • CExclui III, embora o texto 2 explicite motivações pessoais para pichar.
  • EInclui I, embora o narrador não apresente grafite e pichação conjuntamente como práticas artísticas rejeitadas.

Assunto: Intertextualidade e comparação entre textos.

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Fonte: ITA 2019 · 1ª fase. Prova oficial ↗