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Questão 3 (Português) da 2ª fase do ITA 2027
Leia o texto a seguir para responder às questões 1 a 3. · 2ª fase · Português
Entrevista de Clarice Lispector a Mário Schenberg, um dos mais renomados físicos brasileiros, publicada pela primeira vez em 1968 na revista Manchete.
MÁRIO SCHENBERG
“O sentimento do dever é uma das formas mais altas de amor.”
Quem diria na minha infância que eu iria entrevistar um dos meus ídolos? E logo um de quem Einstein disse: só você é capaz de seguir os meus passos. Eu tinha uns 7 para 8 anos no Recife, e Mário Schenberg já era rapaz feito. Não sei quando ele abriu suas grandes asas e foi para o mundo – no caso, São Paulo. Ele é o maior físico do Brasil.
O professor Mário Schenberg conversa comigo. Enquanto presto a máxima atenção no assunto, tenho, no entanto, tempo para examiná-lo: ele tem uma bela cabeça de homem que1 lembra muito a cabeça de um imperador romano. Quando fala, Mário fecha os olhos por longo tempo.
— Sou físico, principalmente teórico, mas também tenho participado de equipes experimentais. No momento estou redigindo um trabalho sobre eletromagnetismo e gravitação. Estou também participando da colaboração Brasil-Japão sobre raios cósmicos. Sou professor de mecânica racional, celeste e superior do Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. O ano passado dei um curso de pós-graduação no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas do Rio de Janeiro.
Eu: A maioria de nós não alcança esses assuntos e fica na escuridão. O que eu alcancei e tento transmitir aos leitores foi a ideia de alguma coisa de uma extraordinária beleza. Algo assim como a música de câmara. Quando estudei no ginásio matemática e física, percebi que nesses dois ramos do conhecimento humano a intuição tinha um papel preponderante, embora a maioria das pessoas achasse que se trata apenas de uma capacidade aguda de raciocínio. É claro, o raciocínio tem enorme importância, mas também é claro que a intuição tem seu papel na física e matemática. E, para mim, tudo aquilo em que entra intuição é uma forma de arte. Física e matemática são de um poético tão alto que já é banhado de luz.
— Mário, o Brasil já realiza pesquisas atômicas?
— Pesquisas sobre física atômica, física nuclear e física das partículas elementares, tudo isso já vem sendo realizado no Brasil desde 1934, quando foi criada a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Nessa ocasião, o professor Gleb Wataghin fundou o Departamento de Física da faculdade. Depois da última guerra, os estudos sobre aproveitamento de energia nuclear começaram a ser feitos em São Paulo, na Guanabara, e mais tarde em Belo Horizonte, Recife e outros pontos do país. O principal centro de pesquisas sobre as aplicações de energia nuclear é o Instituto de Energia Atômica, de São Paulo, que pertence à Comissão Nacional de Energia Nuclear, fundado pelo professor Marcelo Damy de Sousa Dantas.
— Você acha que já existe um volume suficiente de pesquisas atômicas no Brasil?
— Não. O número de pesquisadores e as instalações de que dispomos são ainda inteiramente inadequados para o trabalho a ser realizado.
— Haverá para o mundo o perigo da reação em cadeia?
— Houve receios de que uma reação nuclear em cadeia pudesse se propagar escapando inteiramente ao controle do homem. Esse receio é infundado. A humanidade pode ser destruída numa guerra atômica, mas não por esse processo.
— Qual é a principal aplicação da energia atômica em relação à paz, professor?
— A energia atômica será, sem dúvida, num futuro não muito remoto, a principal fonte de energia à disposição da humanidade. Os recursos hidrelétricos são bastante limitados e formam apenas uma pequena parte da energia consumida. Por enquanto, o grosso do consumo é assegurado pelos combustíveis fósseis, sobretudo petróleo e carvão, cujas reservas estarão provavelmente esgotadas dentro de algumas décadas. Restarão a energia atômica e a energia solar como principais formas de energia utilizadas, sobretudo a energia atômica. […]
— Mário, qual é a coisa mais importante do mundo?
— A vida.
— Qual é a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo?
— É a realização plena da personalidade de seu contexto histórico.
— Que é o amor, Mário?
— É uma dessas coisas que não se pode explicar em palavras. O amor não é puramente emocional. É mais profundo do que isso. Acho que o sentimento do dever é uma das formas mais altas de amor porque é uma das coisas que mais nos ligam uns aos outros.
MÁRIO SCHENBERG (1914–1990)
Seu nome original era Mayer Schönberg, e ele foi considerado o maior físico teórico brasileiro de todos os tempos. Schenberg trabalhou com José Leite Lopes e César Lattes aqui no Brasil, com Enrico Fermi, Wolfgang Pauli e Frédéric Joliot-Curie na Europa, e George Gamow e Subrahmanyan Chandrasekhar nos Estados Unidos. Foi também crítico de arte, político e professor, diretor do Departamento de Física da Universidade de São Paulo e presidente da Sociedade Brasileira de Física.
Fonte: LISPECTOR, Clarice. Entrevista: grandes personalidades entrevistadas por Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Rocco, 2024. Organização, introdução e notas de Claire Williams; Tradução da introdução Clóvis Marques. p. 44-46.
Quanto à análise das formas verbais em destaque no excerto abaixo, assinale a alternativa CORRETA.
“Quando estudei no ginásio matemática e física, percebi que nesses dois ramos do conhecimento humano a intuição tinha um papel preponderante, embora a maioria das pessoas achasse que se trata apenas de uma capacidade aguda de raciocínio”.
- A“estudei” e “percebi”, no pretérito perfeito do indicativo, indicam ações concluídas no passado; “tinha”, no pretérito perfeito do indicativo, apresenta valor descritivo; “achasse”, no pretérito imperfeito do subjuntivo, decorre do valor concessivo introduzido por “embora”.
- B“estudei” e “percebi”, no pretérito perfeito do indicativo, indicam ações pontuais passadas; “tinha”, no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, expressa anterioridade em relação a “percebi”; “achasse”, no pretérito imperfeito do subjuntivo, é exigido pela conjunção concessiva “embora”.
- C“estudei” e “percebi”, no pretérito imperfeito do indicativo, indicam sequência de ações pontuais; “tinha”, no pretérito imperfeito do subjuntivo, expressa estado caracterizador de “papel preponderante”; “achasse”, no pretérito imperfeito do indicativo, concorda com o pretérito perfeito anterior “estudei” e “percebi”.
- D“estudei” e “percebi”, no pretérito perfeito do indicativo, indicam ação pontual em sequência narrativa ordenada; “tinha”, no pretérito imperfeito do indicativo, tem valor semântico de estado caracterizador duradouro; “achasse”, no pretérito imperfeito do subjuntivo, é exigido pela conjunção concessiva “embora”.
- E“estudei” e “percebi”, no pretérito perfeito do indicativo, indicam sequência narrativa ordenada; “tinha”, no pretérito perfeito do indicativo, expressa estado caracterizador; “achasse”, no pretérito imperfeito do subjuntivo, exprime dúvida quanto à veracidade da crença popular.
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Resolução comentada
Primeiro identifique cada forma verbal e seu tempo.
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estudei e percebi: pretérito perfeito do indicativo (1ª pessoa do singular). Indicam ações concluídas, pontuais, em sequência: primeiro estudou, depois percebeu.
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tinha: pretérito imperfeito do indicativo (o perfeito seria "teve"; o mais-que-perfeito seria "tivera" ou "tinha tido"). Expressa um estado, uma característica duradoura da intuição ("tinha um papel preponderante"), sem marcar um momento pontual.
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achasse: pretérito imperfeito do subjuntivo. A conjunção concessiva "embora" exige o subjuntivo. Não se trata de dúvida: o subjuntivo aqui é imposto pela conjunção.
Agora confronte com as alternativas:
- A erra ao chamar "tinha" de perfeito e ao dizer que "achasse" "decorre do valor concessivo" de modo vago, mas o erro decisivo é o tempo de "tinha".
- B erra ao chamar "tinha" de mais-que-perfeito.
- C erra ao trocar o tempo de "estudei" e "percebi" e ao chamar "tinha" de subjuntivo.
- E erra em "tinha" (perfeito) e ao atribuir a "achasse" a ideia de dúvida.
- D acerta os quatro verbos: perfeito, perfeito, imperfeito do indicativo e imperfeito do subjuntivo exigido por "embora".
Alternativa D.
Pegadinha: A e B enganam ao errar apenas o tempo de "tinha" (perfeito ou mais-que-perfeito), enquanto o restante parece correto.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AClassifica "tinha" como pretérito perfeito, quando é imperfeito do indicativo.
- BChama "tinha" de mais-que-perfeito e vê anterioridade que o texto não expressa.
- CTroca o tempo de "estudei" e "percebi" (são perfeito) e classifica "tinha" como subjuntivo e "achasse" como indicativo.
- EClassifica "tinha" como perfeito e atribui a "achasse" valor de dúvida, em vez de ser exigência da conjunção "embora".
Assunto: Verbos: tempos, modos e formas nominais.
Resultado conferido com as resoluções dos cursinhos Farias Brito e Poliedro.
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Fonte: ITA 2ª fase 2027 · Português. Prova oficial ↗