PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 20 (Português e Inglês) da 2ª fase do IME 2027
Texto-base das questões 11 a 20 · Português e Inglês
Texto 2
Eu, etiqueta
Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório, um nome... estranho. Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nesta vida. Em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até hoje não fumei. [...] Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, minha gravata e cinto e escova e pente, [...] meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos sapatos, são mensagens, letras falantes, gritos visuais, ordens de uso, abuso, reincidência, costume, hábito, premência, indispensabilidade, e fazem de mim homem-anúncio itinerante, escravo da matéria anunciada. [...] Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro, em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer, principalmente). E nisto me comprazo, tiro glória de minha anulação. Não sou — vê lá — anúncio contratado. Eu é que mimosamente pago para anunciar, para vender em bares festas praias pérgulas piscinas, e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva, independente, que moda ou suborno algum a compromete. Hoje sou costurado, sou tecido, sou gravado de forma universal, saio da estamparia, não de casa, da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante, mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos, tarifados. Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não eu, mas artigo industrial, peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem. Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente.
ANDRADE, C. D. Eu, etiqueta. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. (texto adaptado)
Considere as afirmações relacionadas aos textos 1 e 2:
I. No texto 1, Lima Barreto utiliza a sátira e a ironia da sociedade de sua época e leva o leitor a questionar valores que ainda hoje podem ser considerados positivos sem uma análise mais cuidadosa.
II. No texto 2, a ostentação de marcas e etiquetas atua como um mecanismo de fortalecimento da singularidade do indivíduo, permitindo que ele reafirme suas idiossincrasias.
III. Ambos os textos denunciam a mercantilização do sujeito na sociedade evidenciando a busca pela aceitação social.
Está(ão) CORRETA(S) apenas a(s) assertiva(s):
- AI.
- BII.
- CI e II.
- DI e III.
- EI, II e III.
Você já respondeu questões neste aparelho. Crie sua conta grátis para guardar o histórico e refazer as que errou.
Resposta salva no seu histórico.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
Não temos o texto 1 (de Lima Barreto), mas o texto 2 é suficiente para eliminar a afirmação II e as alternativas que a incluem. As outras duas dependem do que o texto 1 faz.
Afirmação II: no poema, a ostentação de marcas anula a individualidade. O eu lírico diz que se orgulha "de ser não eu, mas artigo industrial", pede que retifiquem seu nome e conclui: "Meu nome novo é coisa". Ele vira "homem-anúncio" e "escravo da matéria anunciada". Logo, as marcas não fortalecem a singularidade nem reafirmam idiossincrasias, e a II é falsa. Isso elimina B, C e E.
Restam A (só I) e D (I e III).
Afirmação III: no texto 2, o sujeito vira mercadoria, o que é a mercantilização do sujeito. Lima Barreto, em textos satíricos sobre a sociedade de sua época, costuma denunciar a vaidade, a aparência e a busca de status e aceitação social (ele critica o culto ao título e à aparência). Assim, é coerente que ambos os textos denunciem a coisificação do sujeito pela busca de aceitação. A afirmação I, sobre sátira e ironia que levam a questionar valores aparentemente positivos, também é coerente com o estilo do autor.
Portanto, I e III estão corretas e II está incorreta.
Alternativa D.
Pegadinha: A afirmação II engana ao dizer que as marcas reforçam a singularidade, quando o poema mostra justamente a perda da identidade.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AConsidera só a I e ignora que os dois textos denunciam a mercantilização do sujeito e a busca de aceitação (III).
- BA II inverte o sentido do poema: a ostentação de marcas anula a individualidade ("meu nome novo é coisa").
- CInclui a II, falsa, e deixa de fora a III.
- EInclui a II, que contraria o poema, em que o sujeito se anula e vira coisa.
Assuntos: Intertextualidade e comparação entre textos, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova
Fonte: IME 2ª fase 2027 · Português e Inglês. Prova oficial ↗