PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 2 (Português e Inglês) da 2ª fase do IME 2027
Texto-base das questões 01 a 10 · Português e Inglês
Texto 1
O Homem Que Sabia Javanês
Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo: — Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo! — Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho aguentado lá, no consulado! — Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui. — Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês! — Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado? — Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso. — Conta lá como foi. Bebes mais cerveja? — Bebo. Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei: — Eu tinha chegado havia pouco ao Rio, estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte: “Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc.” Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os “cadáveres”. Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu. (...) Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar. Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. E preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder “como está o senhor?” — e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico. (...) Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. (...) Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei. — Eu sou, avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar. — Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio? — Não, sou de Canavieiras. — Como? fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo, — Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu. — Onde fez os seus estudos? — Em São Salvador. — Em onde aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos. Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês. — O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, meu avô trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Ao morrer, chamou meu pai e lhe disse: “Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz”. Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí. (...) Veio o livro. Era um velho calhamaço, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito. Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano. (...) O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo. Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos! Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada. Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a coisa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também. Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. — “Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!” Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso. O diretor chamou os chefes de seção: “Vejam só, um homem que sabe javanês — que portento!” A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, consertou o pince-nez no nariz e perguntou: “Então, sabe javanês?” Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. “Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bale, onde vai representar o Brasil no Congresso de Linguística.” Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.(...) — Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro. — Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder.(...) Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bale, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga. Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia. Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia. — É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja. — Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser ? — Quê? — Bacteriologista eminente. Vamos? — Vamos.
BARRETO, Lima. O homem que sabia javanês e outros contos. Curitiba: Polo Editorial do Paraná, 1997. (texto adaptado)
Considere os verbos dos fragmentos destacados retirados do texto 1:
I. “Contei-lhe que meu pai era javanês.” (linhas 50 e 51)
II. “comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio [...]” (linhas 71 e 72)
III. “Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem [...]” (linha 75)
IV. “Cheguei até a esquecer-me dele;” (linha 61)
V. “Logo informei disso o velho barão [...]” (linha 69)
Assinale a alternativa correta acerca da predicação verbal.
- AOs verbos dos fragmentos III e IV são transitivos indiretos, pois exigem complemento introduzido por preposição.
- BOs verbos dos fragmentos I e V são transitivos diretos, pois apresentam objeto direto.
- CO verbo do fragmento II é transitivo direto, pois seu complemento não é introduzido por preposição.
- DOs verbos dos fragmentos III, IV e V são intransitivos.
- EO verbo do fragmento I é transitivo indireto, pois o pronome “lhe” exerce a função de objeto indireto.
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Resolução comentada
Predicação verbal é a forma como o verbo se liga aos complementos: transitivo direto (VTD) pede complemento sem preposição; transitivo indireto (VTI) pede complemento com preposição; transitivo direto e indireto (VTDI) pede os dois; intransitivo não precisa de complemento.
- Contei-lhe que meu pai era javanês: "lhe" é objeto indireto (contei a ele) e a oração "que meu pai era javanês" é objeto direto (contei o quê?). Logo, VTDI.
- comprometendo-me a fazer...: "me" é objeto direto (comprometendo a mim) e "a fazer..." é objeto indireto, com preposição. Logo, VTDI.
- desistira da aprendizagem: quem desiste, desiste de algo. Logo, VTI.
- esquecer-me dele: esquecer-se é pronominal e pede "de" (esquecer-se de algo). Logo, VTI, com o pronome "me" como parte do verbo.
- informei disso o velho barão: informar alguém (OD, "o velho barão") de algo (OI, "disso"). Logo, VTDI.
Conferindo as alternativas: em A, III e IV são ambos transitivos indiretos, e a justificativa (complemento com preposição) está correta. B erra porque I e V também têm objeto indireto. C erra porque "a fazer" tem preposição. D erra porque nenhum dos três é intransitivo. E erra porque I tem também objeto direto.
Alternativa A.
Pegadinha: A alternativa E engana ao notar só o "lhe" (objeto indireto) e ignorar a oração objeto direto; B engana ao ignorar o objeto indireto.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BI e V são bitransitivos: além do objeto direto, têm objeto indireto ("lhe"; "disso").
- CO complemento de "comprometendo-me" vem com preposição ("a fazer"), e o verbo ainda tem OD "me".
- DDesistir, esquecer-se e informar exigem complementos, não são intransitivos.
- EEm I há também objeto direto (a oração "que meu pai era javanês"), então o verbo é VTDI, não só VTI.
Assunto: Termos da oração (sujeito, predicado, complementos e adjuntos).
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Fonte: IME 2ª fase 2027 · Português e Inglês. Prova oficial ↗