Questão 89 da FUVEST 2026
A família de Neide fazia questão de conservar o pomposo sobrenome, “Paranhos”, herdado dos tempos da escravatura. A manutenção do nome dos descendentes dos antigos colonizadores, cuja família era tradicional na cidade, para o clã descendente de africanos escravizados, ganhara um sentido de enfrentamento aos brancos “Paranhos”. Para além de ser um destino histórico, era uma velada reivindicação de uma fortuna familiar dos brancos, que em grande parte era de pertença dos negros “Paranhos”.
Conceição Evaristo. Canção para ninar menino grande.
No excerto, o uso do mesmo nome por uma família branca e uma família negra indica
- Aa ascensão social dos “Paranhos” negros após o fim da escravidão, alcançada por meio dos programas governamentais de ajuda a ex-escravizados, e a decadência dos “Paranhos” brancos trazida pela crise do café.
- Bo racismo expresso nas ações e decisões das instituições políticas monárquicas, provenientes do período colonial, e a manutenção da dominação socioeconômica dos “Paranhos” negros pelos “Paranhos” brancos.
- Ca persistência de um vínculo desigual entre as famílias, oriundo do período da escravidão, e um esforço dos “Paranhos” negros de afirmar sua participação no enriquecimento dos “Paranhos” brancos.
- Do esforço de construção de uma ordem social harmoniosa, desenvolvida durante a Primeira República, e a persistência de ressentimentos e rivalidades pessoais entre os “Paranhos” brancos e os “Paranhos” negros.
- Ea dependência financeira dos “Paranhos” negros em relação aos “Paranhos” brancos, provocada por sua condição de escravizados, e a valorização da mistura racial como característica de formação do povo brasileiro.
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Resolução comentada
O trecho diz que o sobrenome "Paranhos" foi herdado "dos tempos da escravatura", isto é, os negros receberam o nome da família dos senhores que os escravizaram. Essa é a origem do vínculo desigual entre as duas famílias.
O texto também diz que manter o nome, para os negros, ganhou "um sentido de enfrentamento" e era uma "velada reivindicação" da fortuna dos brancos, "que em grande parte era de pertença dos negros". Ou seja, os descendentes de escravizados usam o sobrenome para lembrar que a riqueza dos brancos foi construída com o trabalho de seus antepassados.
Conferindo as alternativas com o texto:
- O excerto não cita programas governamentais, ascensão dos negros, crise do café nem decadência dos brancos (A).
- Não há referência a instituições monárquicas, e o texto fala de reivindicação, não de dominação socioeconômica atual (B).
- Não se trata de uma ordem harmoniosa na Primeira República; o texto mostra enfrentamento, e não rivalidades pessoais (D).
- O texto afirma que a fortuna pertence em parte aos negros, o que contradiz a ideia de dependência financeira, e nada diz sobre valorização da mistura racial (E).
Só a alternativa C reúne os dois pontos: o vínculo desigual herdado da escravidão e o esforço dos "Paranhos" negros de afirmar sua participação na riqueza dos brancos.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AInventa programas de ajuda a ex-escravizados e a crise do café, que o texto não menciona, e supõe ascensão social que o trecho não indica.
- BAtribui o problema às instituições monárquicas e fala em dominação atual, ignorando que o texto trata de reivindicação dos negros.
- DFala em ordem harmoniosa na Primeira República, contrariando o "enfrentamento" do texto.
- EInverte a relação: o texto diz que a fortuna era em grande parte dos negros, não que dependiam dos brancos; também introduz a mistura racial, ausente do trecho.
Assuntos: escravidão e pós-abolição, interpretação de texto literário.
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