Questão 87 da FUVEST 2026

1ª fase

As plantas viam o jardineiro como as plantas vêem. Não se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de Outono. Florescerem não era o seu meio de meterem conversa com o jardineiro, mas uma forma de acentuarem a sua indiferença à declaração de amor que ele cultivava a cada hora.

Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes do amor que ele lhes dedicava.

Seguiam-no com o seu olhar sem julgamento, alheias a que, todas as manhãs, Celestino acordava por elas. Vigiavam os seus passos, pressentiam a sua presença, alegravam-se de o ver, conheciam as suas rotinas. Sem que por um instante lhe sentissem a falta, ou se afligissem com as suas ausências ocasionais.

Djaimilia Pereira de Almeida. A visão das plantas.

Considerando o trecho citado, depreende-se que o “olhar sem julgamento”

  1. A
    expressa a piedade do jardim diante da condição de Celestino, que se encontra próximo da morte.
  2. B
    expressa o terror das plantas por serem cuidadas por um criminoso que carrega atos extremos de violência praticados em seu passado.
  3. C
    evidencia que a natureza está alheia às ações e sentimentos humanos, existindo à revelia da humanidade.
  4. D
    é a retribuição ao cuidado cotidiano que as plantas recebem, reconhecendo que Celestino se redimiu de seu passado.
  5. E
    evidencia a integração do jardineiro com o jardim, na medida em que dependem naturalmente um do outro para sobreviverem.
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Resolução comentada

O trecho mostra o jardineiro Celestino, que cuida das plantas com amor, e as plantas, que o veem "como as plantas vêem", isto é, de modo próprio à natureza vegetal.

Veja os indícios do texto:

  1. As plantas "não se sentiam agradecidas" e tratavam o regador como a chuva. Logo, o cuidado não gera nelas gratidão nem retribuição.
  2. Florescer não era uma forma de conversar com o jardineiro, mas de "acentuar a indiferença" à declaração de amor dele. Portanto, não há reciprocidade.
  3. "Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino": elas não julgam o passado violento dele nem as mãos sujas. É nisso que consiste o "olhar sem julgamento".
  4. Elas estão "alheias" ao fato de ele acordar por elas e não lhe sentem a falta nas ausências.

Assim, o olhar sem julgamento indica que a natureza é indiferente aos valores, às culpas e aos afetos humanos. Ela existe por conta própria, sem depender do homem nem se comover com ele. Isso corresponde à alternativa C.

As demais atribuem às plantas sentimentos humanos (piedade, terror, retribuição, dependência mútua), o que o texto nega expressamente.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AAtribui piedade às plantas e inventa a proximidade da morte de Celestino, o que o texto não diz.
  • BFala em terror, mas o texto diz que tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino; elas são indiferentes.
  • DVê retribuição e redenção, mas as plantas não se sentem agradecidas nem julgam, nem perdoam.
  • ESupõe integração e dependência mútua, contrariando a indiferença e a alheamento das plantas, que nem sentem a falta dele.

Assuntos: interpretação de texto, literatura portuguesa contemporânea.

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