Questão 89 da FUVEST 2025
“Aconteceu num debate, num país europeu. Da assistência alguém me lançou a seguinte pergunta:
- Para si, o que é ser africano?
Falava-se, inevitavelmente, de identidade versus globalização. Respondi com uma pergunta: - E para si, o que é ser europeu?
O homem gaguejou. Não sabia responder. Mas o interessante é que, para ele, a questão da identidade se colocava naturalmente para os africanos. Não para os europeus. Ele nunca tinha colocado a questão no espelho.
Recordo o episódio porque me parece que ele toca uma questão central: quando se fala de África, de qual África estamos falando? Terá o continente africano uma essência facilmente capturável? Haverá uma substância exótica que os caçadores de identidades possam recolher como sendo a alma africana?”
COUTO, Mia. “Um retrato sem moldura”. In: HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2008. p.11.
Ao relatar e comentar o episódio, o escritor moçambicano Mia Couto apresenta a África como
- Auma construção histórica proporcionada pela ação humanitária dos colonizadores europeus.
- Bum resultado natural da luta dos povos do continente contra a dominação estrangeira.
- Cuma região historicamente afetada por graves problemas demográficos e sanitários.
- Dum continente definido a partir de critérios políticos e geográficos deterministas.
- Eum mosaico composto por relações econômicas, políticas e culturais instáveis.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
Mia Couto conta que um europeu perguntou a ele o que é ser africano, mas não sabia responder o que é ser europeu. Isso mostra que a identidade é cobrada só do africano, como se a África tivesse uma "essência" fixa, uma "substância exótica" que os "caçadores de identidades" pudessem "recolher" como a "alma africana".
O autor questiona justamente essa visão. Ao perguntar "de qual África estamos falando?", ele diz que o continente não é uniforme nem redutível a uma identidade única. A África, para ele, é plural e diversa.
Avaliando as alternativas com esse critério:
- Ideias de "ação humanitária" dos colonizadores ou de "luta contra a dominação" não aparecem no texto.
- Problemas demográficos e sanitários também não são tema do trecho.
- Critérios "deterministas" vão contra a crítica à essência: o texto rejeita definições fixas.
- A ideia de um mosaico de relações econômicas, políticas e culturais instáveis expressa a diversidade e a ausência de essência única, que é o que o autor defende.
A alternativa que traduz a África como plural, diversa e sem essência fixa é a E.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AAtribui a África a uma ação humanitária colonial, ideia ausente do texto e contrária ao tom crítico do autor.
- BO texto não trata de luta anticolonial nem de resultado natural dela; o foco é a crítica à essência identitária.
- CProblemas demográficos e sanitários não são mencionados; foge do tema da identidade.
- DCritérios deterministas fixariam uma essência, exatamente o que Mia Couto questiona.
Assuntos: identidade africana, interpretação de texto, diversidade cultural.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova